Conte faz orelhas moucas à critica e responde com ataque à falta de solidariedade europeia

Primeiro-ministro italiano disse em Estrasburgo que a União Europeia atravessa uma "fase crítica".

O chefe do governo italiano - que junta, na coligação, duas forças políticas antagónicas, que têm em comum uma profunda matriz anti-europeia -, reconheceu em Estrasburgo que a União Europeia atravessa "uma fase critica".

"O edifício europeu está a passar por uma fase particularmente crítica. O projeto europeu parece ter perdido a sua força motriz", lamentou Giuseppe Conte, considerando que "a situação histórica complexa coloca diante de nós (...) desafios de importância crucial".

O discurso de Conte acabou por ter algumas passagens marcadamente pró-europeias, com elogios à integração em matéria de fronteiras, no espaço de livre circulação de Schengen. Mas, ao mesmo tempo, Conte criticou a falta de solidariedade em matéria de migrações.

"Aqueles que chegam a um país de desembarque chegam à Europa", afirmou Conte, socorrendo-se de uma citação de Aldo Moro - o antigo primeiro-ministro Italiano, assassinado no final da década de 70, pelas brigadas vermelhas -, que argumentou que "a ninguém é pedido que escolha entre estar na Europa e estar no Mediterrâneo, uma vez que toda a Europa está no Mediterrâneo".

Crítica de Rangel

O recurso às palavras do antigo líder de cinco governos italianos resultou numa crítica do deputado social-democrata, Paulo Rangel que considerou uma "pena que o governo italiano atual não honre a memória de Aldo Moro, com o seu europeísmo e a sua dedicação à causa europeia. Não basta citá-lo a propósito do Mediterrâneo. É preciso citá-lo a propósito da Europa".

E aproveitou também para critar a posição de Itália em relação à Venezuela: "Permita-me que lhe diga, como português, que estranho muito a posição do governo italiano na questão Venezuelana. Não apenas porque ela põe em causa a questão da política externa europeia, mas porque, tal como há uma grande comunidade portuguesa em Caracas, na Venezuela, também há uma grande comunidade italiana", indicou Rangel.

"Será que o governo italiano não pensa nos italianos que estão a sofrer com o regime de Maduro e estão a sofrer a miséria que ele lhe impôs? Esta é a questão a que o governo italiano já devia ter respondido. Não basta responder agora. Devia ter respondido na primeira hora".

Conte e Orban

O tom critico das intervenções dos deputados, só comparável ao registo que utilizaram na audição ao primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, marcou toda a audição.

A questionar a posição do governo italiano relativamente à Venezuela, o líder da bancada do Partido Popular Europeu, Manfred Weber disse a Giuseppe Conte que "[o presidente interino Juan] Guaidó está certo quando diz - numa carta que escreveu hoje aos cidadãos italianos -, porque é que o vosso governo não me apoia? Porque é que o governo italiano não apoia as forças democráticas na Venezuela penso que você deveria dar uma resposta relativamente a isto, se você acredita numa abordagem europeia comum".

"Ponderação" sobre Venezuela

Em reação às críticas, Giuseppe Conte acabou por "recordar" que "as eleições presidenciais de 2018 [na Venezuela], não foram eleições democráticas [e] nós não as reconhecemos".

Conte afirmou que ele "próprio" deu um contributo para a posição europeia, em que se apela à realização de novas eleições presidenciais na Venezuela, através de um processo que seja "transparente, credíveis e validadas a nível internacional".

O chefe do governo italiano disse ainda que na Venezuela "há uma população que está a sofrer (...) e há uma urgência para a ajuda humanitária, no respeito do direito internacional".

"Um regime não pode ser justificado, se usa violência, se reprimir as manifestações pacificas com violência", disse Conte, considerando que no quadro de um posição "ponderada", não pode ir além de apelar à realização de eleições livres e democráticas.

"Pretendemos trabalhar para isso. Seremos parte activa do grupo de contacto. Estaremos disponíveis para alguma forma de mediação, advertido para a responsabilidade histórica de dizer, descredibilizando os outros, quando sabemos que as maiores crises (...) resultam de colocar um actor [no poder] a despeito do outro".

Coletes amarelos

Por sua vez, o líder dos liberais, Guy Verhofstadt criticou a "ligeireza" com que o governo italiano "abusa", no apoio ao movimento dos coletes amarelos em França, tendo conduzido a uma crise diplomática se precedentes, em tempo de paz, na Europa.

"A última ligeireza do seu governo e de Di Maio que está a gozar e abusar da sua posição, para apoiar os coletes amarelos - um movimento popular que se apelidou de um grupo de demolidores -, que incendiam máquinas, invadem lojas e destroem as paragens de autocarro", lamentou Verhofstadt.

Já o líder da bancada dos Socialistas & Democratas, o alemão Udo Bullmann manifestou-se "profundamente desapontado com a escalada da tensão entre França e Itália. O que é isto? E para que é que propósito é que isto serve?"

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