Congresso do PMDB com gritos de "impeachment já"

Militantes de aliado do PT pedem queda de Dilma.

"Brasil para a frente, Temer presidente" e "impeachment já" foram palavras de ordem do congresso realizado ontem em Brasília pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), principal aliado do Partido dos Trabalhadores (PT), para desconforto da presidente Dilma Rousseff. Mas partiram de militantes avulsos porque os líderes da maior força parlamentar e municipal do país preferem por agora esperar, comodamente sentados ao lado do PT no Palácio do Planalto, por melhor oportunidade para abandonar o barco do governo.

Michel Temer, presidente do partido, vice-presidente de Dilma, herdeiro da cadeira presidencial em caso de impeachment e destinatário dos cânticos dos militantes, teve por isso intervenção sóbria à margem do congresso. "Não sou candidato, sou apenas presidente do PMDB, se o partido encontrar uma boa solução para 2018 já daria por satisfeita a minha vida pública", disse. Para acrescentar que acredita que Dilma está a fazer "o possível e o impossível para unir o Brasil", corrigindo uma intervenção sua de há meses em que se pôs à disposição para "unificar o país".

Até Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e eterno inimigo do governo, suavizou o seu discurso contra o PT e Dilma. "O partido não se pode furtar à discussão sobre se continua ou não no governo", afirmou apenas.

Renan Calheiros, presidente do Senado, também foi sucinto ao declarar que "o PMDB tem de ser um norte no Brasil".

Outros nomes importantes do partido, como Luiz Fernando Pezão e Eduardo Paes, respetivamente governador e prefeito do Rio de Janeiro, nem compareceram.

Marcado desde agosto, o congresso, realizado na sede da Fundação Ulysses Guimarães, em homenagem ao membro histórico do partido falecido em 1992, serviria inicialmente para o rompimento, com pompa, do PMDB com o governo. Na altura, Eduardo Cunha, menos fragilizado do que hoje por causa do seu suposto envolvimento no Petrolão, comandava a agenda do impeachment e Dilma parecia num beco sem saída.

Porém, os documentos dos Ministérios Públicos da Suíça e do Brasil, revelando contas de Cunha no país europeu irrigadas pelo Petrolão, facto que levou à perda de confiança do oposicionista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) no líder dos deputados, esfriaram a tese do impeachment e até levaram a que o parlamentar fosse recebido ontem com vaias pelos seus correligionários.

Além disso, a remodelação governamental de Dilma, feita por medida para agradar a setores do PMDB com a atribuição de mais um ministério ao partido, também acalmou as ânsias de cisão de parte dos seus barões.

A evolução do discurso do senador Romero Jucá resume a situação. "Não é hora de votar ou discutir nada, apenas de apresentar um programa partidário para o país", disse ontem; há um mês e meio comparava a permanência do PMDB no governo a ter uma suite no Titanic.

O vice-presidente do partido, Valdir Raupp, afirmou mesmo que, dadas as circunstâncias, era melhor adiar a discussão sobre a continuidade ou saída do executivo para março.

Mas Michel Temer aproveitou a reunião realizada em Brasília para explicar o recém-redigido programa partidário do PMDB, que difere em pontos essenciais do diagnóstico do PT da situação económica e política do país e motivou elogios do PSDB. Porque na política brasileira nunca se sabe o dia de amanhã

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