Como vai Obama fora da Casa Branca? Bem, obrigado

Aliviado, descontraído, comprometido com a sua fundação e atento ao que se passa no mundo. É Barack Obama na versão pós-presidencial que vai estar no Coliseu do Porto esta sexta-feira. No fundo, o homem que conhecemos mas sem a pressão do exercício do poder. E a faturar

O 44.º presidente dos Estados Unidos está muito longe da reforma, embora nos primeiros tempos tenha aproveitado para descansar e viajar.

A ex-assessora Valerie Jarrett comenta: "Não perde um segundo a suspirar pelo regresso à Sala Oval". "Está a aproveitar o novo capítulo da sua vida, e teve a hipótese de passar tempo de qualidade com a senhora Obama e a família", afirma à NBC.

Por exemplo, em fevereiro de 2017 correram mundo as imagens do antigo chefe de Estado a praticar kitesurf, durante as férias nas Ilhas Virgens Britânicas, a convite do multimilionário Richard Branson.

Dali, Obama seguiu para a Polinésia Francesa, onde esteve primeiro sozinho e depois acompanhado pela mulher.

Em maio, a família esteve junta na Toscânia e no mês seguinte o destino foi a Indonésia, país em que Barack viveu durante a infância.

Em Bali não faltou uma descida de rio.

"É óbvio para a maioria dos observadores que ele está aliviado por já não carregar o fardo da presidência. Não há dúvidas de que está mais descontraído, mais à vontade e mais aliviado do que esteve numa década, e isso nota-se", diz ao The Hill Josh Earnest, da equipa de Obama desde a campanha de 2008 e secretário de imprensa da Casa Branca de 2014 a 2017

"Ele está a apreciar o seu tempo", diz por sua vez Cecilia Muñoz, que trabalhou junto de Obama desde 2009, à NBC News. "[Obama] esteve lá durante oito anos. Nós costumávamos dizer em brincadeira que não eram anos normais, eram anos de cão."

Casa nova

O democrata saiu da Casa Branca com 55 anos e ficou a viver com a família em Washington, não tanto para se manter junto dos círculos do poder, mas para que a filha mais nova, Sasha, termine os estudos secundários na mesma escola, um tema "muito importante" para o casal Barack e Michelle, segundo a antiga assessora do presidente Valerie Jarrett. A filha mais velha, Malia, está a estudar em Harvard (Massachussets).

O casal comprou uma mansão não longe da residência oficial do vice-presidente, num bairro privilegiado.

Uma aquisição possível graças sobretudo aos rendimentos obtidos dos livros que publicou. Nos oito anos na Casa Branca, explica a Forbes , Obama teve rendimentos de 10,8 milhões de dólares (9,2 milhões de euros), a maioria proveniente dos direitos de autor de A minha herança, A audácia da esperança e De ti eu canto: carta às minhas filhas (6,4 milhões de euros).

Os livros são um filão. O casal terá recebido da Penguin Random House 65 milhões de dólares para uma biografia a dois.

Os laços com Chicago

É provável, contudo, que a família regresse a Chicago. É a cidade de Michelle, mas também onde está a fundação que criou em 2014, ainda na presidência. A instituição atribui bolsas quer para dar mais oportunidades de emprego e estudo a jovens negros norte-americanos, quer a estudantes de todo o mundo numa especialização em liderança.

Mas o principal objeto da fundação, neste momento, é supervisionar a construção do Centro Presidencial Obama, um complexo de edifícios, que incluirá a biblioteca e o museu presidencial.

Um projeto que causou alguma controvérsia, até pelo facto de que o Estado de Illinois prever gastar 224 milhões de dólares em infraestruturas à sua volta.

Mensagens políticas, algumas

Perante um sucessor que tem no programa desfazer ou agir em sentido contrário a quase todas as suas políticas e valores, Barack Obama nem sempre conseguiu manter a tradição norte-americana de que os ex-líderes não se envolvem na atualidade.

O fim do programa relativo de imigração dos dreamers (DACA), a separação de pais e filhos migrantes, a reversão da política de saúde pública (Obamacare), ou as manifestações dos estudantes contra o lobby das armas foram momentos em que o democrata se manifestou.

Um discurso por 400 mil

Adrian Bridge, o empresário que traz Barack Obama à conferência sobre alterações climáticas, diz que Barack Obama recebe 30 convites diários para discursar. Em 2018, segundo disse o CEO da Fladgate à SIC Notícias, o ex-presidente fará seis discursos mundo fora. E um deles é o do Coliseu do Porto.

Conhecido pelos seus dotes de tribuno, Barack Obama seguiu os passos de outros ex-líderes, como Bill Clinton, e participa em conferências, nas quais pode amealhar até 400 mil dólares, como foi o caso do discurso em Wall Street, no banco de investimento Cantor Fitzgerald.

O facto gerou animada discussão e críticas dentro do campo democrata. A sua porta-voz, Katie Hill, defendeu a atividade, quer porque Obama "permanece fiel aos seus valores e ao seu passado", quer porque este rendimento é depois canalizado para a fundação.

Sobre o discurso da Climate Change Leadership, a organização não adianta os valores envolvidos. O tema é caro a Barack Obama. Basta lembrar que foi um dos apoiantes do Acordo de Paris, ou que no último discurso enquanto presidente instou os EUA a agirem em relação às alterações climáticas.

Estrelas da Netflix

Há um mês e meio a empresa de TV Netflix anunciou um contrato de vários anos com Barack e Michelle Obama. A quantia a pagar para produzir documentários e outras produções relacionados com o anterior casal presidencial também não foi revelada.

O que vai ser feito? A declaração de Ted Sarandos, diretor de conteúdos da empresa, levanta o véu: "Barack e Michelle Obama estão entre as figuras públicas mais respeitadas e altamente reconhecidas do mundo e estão numa posição única para descobrir e destacar histórias de pessoas que fazem a diferença nas suas comunidades e que se esforçam para mudar o mundo para melhor."

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