Como um homem desviou um avião de mãos vazias

Autoridades cipriotas e egípcias afastam cenário de terrorismo. Pirata tinha cinto de explosivos que não passavam de capas de telemóvel

O voo MS181 da EgyptAir foi ontem desviado e forçado a aterrar em Chipre por um homem que levava um falso cinto de explosivos. Este pirata do ar, identificado como sendo Seif Eldin Mustafa, de 59 anos, foi detido, com as autoridades a garantirem que não se tratou de um ato de terrorismo, mas sim a ação de "uma pessoa psicologicamente instável". Passageiros e tripulação saíram ilesos deste episódio que durou cerca de seis horas e, de início, gerou receios de uma ação terrorista.

A bordo do Airbus A320 seguiam 56 passageiros, de várias nacionalidades, sete tripulantes e um elemento da segurança, segundo a EgyptAir. Embarcaram num voo doméstico que iria ligar Alexandria ao Cairo, mas acabaram por ir parar ao aeroporto de Larnaca, no sul do Chipre, devido à ameaça de Mustafa, que se apresentou com um alegado cinto de explosivos. E que afinal não eram mais do que capas de telemóvel e fios. "Não se trata de terrorismo, foi uma ação individual de uma pessoa psicologicamente instável", declarou um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros cipriota após o fim do sequestro.

Imagem do pirata do ar captada dentro do avião

Há várias teorias sobre os motivos que levaram o egípcio a desviar o avião. A televisão pública cipriota referiu que exigira a libertação de mulheres prisioneiras no Egito. Testemunhas adiantavam que tinha uma carta, escrita em árabe, e pediu que fosse entregue à ex-mulher, de nacionalidade cipriota. "Houve momentos em que ele pediu para se encontrar com um representante da União Europeia e noutros pediu para ir para outro aeroporto, mas nada específico", disse o primeiro-ministro egípcio, Sherif Ismail.

Já o ministro dos Negócios Estrangeiros cipriota, Ioannis Kasoulides, referiu que o homem tinha ameaçado fazer-se explodir e exigiu que o avião fosse reabastecido e viajasse para Istambul. "Parece que ele percebeu que as suas exigências não iriam ser atendidas, permitindo aos últimos reféns, de nacionalidade britânica, saírem do avião", prosseguiu. "Os explosivos que tinha foram examinados. Não eram explosivos, eram capas de telemóvel". Buscas feitas ao aparelho, com a ajuda de cães-polícia, também não encontraram qualquer sinal de explosivos na aeronave.

Depois do avião aterrar em Larnaca, as negociações começaram e todos os que estavam a bordo foram libertados, à exceção de três passageiros e quatro tripulantes, explicou Sheriff Fethy, o ministro da Aviação Civil do Egito. Pouco depois, viu-se várias pessoas a descer as escadas e um homem a sair pela janela do cockpit e a fugir. O pirata entregou-se às autoridades.

Foi revistado

O ministro da Aviação Civil do Egito adiantou que o piloto, Omar al-Gammal, disse às autoridades ter sido ameaçado por um passageiro que dizia estar a usar um cinto de explosivos e o obrigou a desviar o avião para Larnaca. Contactado pela Reuters, Gammal acrescentou que o pirata do ar parecia "anormal".

Fotos transmitidas na televisão estatal egípcia mostram um homem de meia idade num avião usando óculos e ostentando um cinto branco com os bolsos cheios e fios salientes. Outros canais mostram imagens de videovigilância do pirata do ar a ser revistado pela segurança na zona dos detetores de metais no aeroporto Borg al-Arab, em Alexandria.

Fontes do Ministério do Interior egípcio dizem que ele foi expulso da faculdade de Direito e tinha um longo registo criminal, incluindo assaltos. Já Sheriff Fethy, o responsável pela Aviação Civil, declarou que as autoridades, embora desconfiando que os explosivos eram falso, lidaram com a situação como se fossem verdadeiros para garantir a segurança de todos. "Não podemos dizer que isto foi um ato terrorista, ele não era um profissional", declarou Fethy.

Este incidente é um novo contratempo para o turismo do Egito, que já tinha sofrido um golpe com a queda de um avião de passageiros russo na Península do Sinai em outubro. Na altura, o presidente Abdel Fattah al-Sisi disse que voo 7K9268 da Metrojet tinha sido alvo de um ataque terrorista. O Estado Islâmico acabou por reivindicar o ataque, no qual morreram 224 pessoas.

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