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Como começou e como pode acabar a "guerra" dos Estados Unidos à Huawei

O bloqueio parcial, pela Google, dos sistema Android aos equipamentos da Huawei é o mais recente capítulo de uma guerra comercial e de segurança entre os Estados Unidos e a China cujo desfecho é cada vez mais imprevisível.

Ao impedir o acesso a vários serviços Android por telemóveis novos da Huawei, na sequência da "emergência" declarada há dias pelo presidente Donald Trump, a Google poderá ter dado um rude golpe às perspetivas futuras do gigante tecnológico chinês. Mas nesta fase ninguém arriscará dizer quem serão os vencedores e vencidos desta guerra comercial que começou há quase uma década. Ou sequer se haverá alguém a ganhar no final.

Os antecedentes

As preocupações dos Estados Unidos com a Huawei remontam praticamente à entrada em força da empresa no mercado do país, no início desta década. O fundador da empresa, Ren Zhengfei, foi durante muitos anos engenheiro no Exército de Libertação Popular, de onde se reformou com um cargo de chefia. E rumores (negados pela empresa) de que a Huawei teria recebido um generoso empréstimo de um banco estatal chinês numa fase inicial do seu crescimento alimentaram a suspeita de que poderia haver uma ligação umbilical entre a tecnológica e as autoridades de Pequim.

Esta desconfiança intensificou-se quando a empresa se viu envolvida numa série de incidentes relativos a possível espionagem industrial. O mais notório, em 2012, envolveu o Tappy, um robô desenvolvido pela norte-americana T-Mobile para simular os movimentos dos dedos nos ecrãs dos smartphones. A Huawei era fornecedora de equipamentos para aquela empresa e dois dos seus técnicos foram apanhados a filmar e fotografar o robô em funcionamento, durante uma visita às instalações.

As primeiras acusações oficiais

A comissão permanente da Câmara dos Representantes norte-americana especializada em questões de segurança e intelligence, começou, logo em 2011, uma investigação a várias empresas chinesas presentes no país. E, em agosto de 2012, divulgou um relatório onde sinalizava a Huawei e ZTE, outra empresa de telecomunicações chinesa, como potenciais ameaças à segurança nacional, devido ao seu alegado envolvimento em espionagem industrial e proximidade com o governo de Pequim.

Na altura, o presidente democrata Barack Obama disputava a reeleição com o candidato republicano, Mitt Romney, e ambos os partidos adotaram um discurso musculado em relação à China, embora evitando referências específicas a empresas.

Na realidade, Obama já tinha nessa altura tomado algumas medidas preventivas contra a China. Meses antes, impedira uma empresa chinesa de investir num projeto de energia eólica no estado do Oregon, perto de um local onde a Marinha norte-americana testava drones militares. E os primeiros sinais de uma guerra comercial entre os dois países também já eram notórios, com os Estados Unidos a apresentarem uma queixa contra a China na Organização Mundial do Comércio, em Genebra.

Uma ação interposta em tribunal pela T-Mobile contra a Huawei, em 2014, terminou com a condenação parcial da empresa chinesa, ainda que o tribunal não tenha dado como provada a existência de intenções maliciosas por parte da empresa. O assunto, contudo, não ficaria esquecido.

Primeiras limitações ao negócio nos Estados Unidos

No que respeita às empresas de telecomunicações, o primeiro alvo concreto das autoridades norte-americanas não foi a Huawei mas a relativamente mais pequena ZTE que, em julho de 2012, começou a ser investigada pelo FBI por alegadamente ter vendido equipamento norte-americano ao Irão. Em março de 2017, aquela empresa aceitou pagar penalizações de cerca de mil milhões de euros para evitar ser impedida de operar nos Estados Unidos mas esse acordo não pôs fim à crescente desconfiança norte-americana em relação a estas tecnológicas.

Os acontecimentos começaram a precipitar-se no ano passado, à medida que a Administração Trump endurecia o discurso sobre as relações comerciais com a China. Em janeiro de 2018, a Huawei confirmava o cancelamento de um acordo com a operadora norte-americana At&T para distribuir os seus equipamentos. Em março do mesmo ano, a grossista de produtos eletrónicos Best Buy começou também a retirar os equipamentos da Huawei das prateleiras das suas lojas. Em abril, apesar das compensações pagas, a ZTE ficava mesmo impedida por sete anos de atuar no território dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que era anunciado que a Huawei estava a ser investigada por violação das sanções comerciais ao Irão.

Em agosto, numa cerimónia pública, Donald Trump assinou o National Defense Authorization Act para o ano fiscal 2019 que formaliza a proibição de o governo federal adquirir equipamentos de uma série de fabricantes chineses, incluindo a Huawei. Estava fechada a primeira porta: os serviços públicos dos Estados Unidos. Faltava o setor privado.

A detenção da filha do fundador

Em dezembro de 2018, a executiva da Huawei, Meng Wanzhou, filha do fundador da empresa, foi detida no Canadá a pedido dos Estados Unidos. A principal acusação, formalizada em janeiro deste ano por um tribunal de Nova Iorque era de que Wanzhou, diretora financeira da empresa, teria violado as sanções comerciais norte-americanas ao Irão, ao usar uma subsidiária, a Skycom, para fazer várias transações através de bancos internacionais. Uma segunda acusação, conhecida também em janeiro, responsabilizava a multinacional chinesa pelo alegado roubo de propriedade intelectual da T-Mobile, em 2012.

A detenção decorreu em plena negociação entre os Estados Unidos e a China sobre o acordo comercial entre os dois países, e foi interpretada como uma tentativa de manifestação de força por parte dos norte-americanos. Em "retaliação", Pequim deteve dois antigos diplomatas canadianos no país. Wanzhou continua em prisão domiciliária, na sua casa de Vancouver, no Canadá, e a combater nos tribunais uma possível extradição para os Estados Unidos. E os dois cidadãos canadianos continuaram detidos em regime de solitária na China.

A campanha global contra as redes de 5G

Em paralelo, os Estados Unidos começaram uma intensa campanha junto dos seus aliados no sentido de impedir a Huawei de se tornar parceira na implementação das novas redes de 5G em vários países ocidentais. A Austrália, ainda em 2018, foi a primeira a formalizar o bloqueio a parcerias com a empresa nas novas redes, a par da ZTE. A Nova Zelândia tomou medidas semelhantes em relação a uma das operadoras do país, embora ainda não generalizando a interdição da participação em todas as novas redes. No Reino Unido, a British Telecom também chegou a anunciar a suspensão de quaisquer parcerias com a empresa, ainda que o assunto também não pareça estar definitivamente fechado.

Mesmo entre quem ainda não assumiu posições oficiais, é evidente o maior escrutínio à empresa. Países como a Dinamarca e a Polónia registaram recentemente incidentes isolados com trabalhadores suspeitos de espionagem para a tecnológica chinesa, que de imediato suspendeu ou demitiu os envolvidos, repudiando qualquer envolvimento direto nesses atos.

A pressão norte-americana não tem abrandado. Antes pelo contrário. Em março, os Estados Unidos ameaçaram suspender a partilha de informação com a Alemanha se aquele país não impedir a empresa chinesa de instalar a rede de 5G do país. Avisos semelhantes têm sido feitos, com maior ou menor diplomacia, um pouco por todo o ocidente. Portugal, recorde-se, também teve direito a uma "sessão de esclarecimento" na qual foi alertado para o impacto que uma parceria com a Huawei poderá ter nas relações bilaterais.

A machadada final?

A ordem executiva assinada por Donald Trump na quarta-feira passada, declarando uma "emergência nacional" para justificar o a interdição do uso de equipamentos fabricados por empresas consideradas uma ameaça à segurança nacional, constituiu de facto um bloqueio aos produtos da Huawei, das suas cerca de 70 subsidiárias, e de outras empresas chinesas.

A decisão da Google, conhecida esta segunda-feira, de bloquear parcialmente o acesso à tecnologia Android por novos dispositivos da Huawei, nomeadamente ao Gmail e ao Maps, poderá ter um efeito devastador nas vendas da empresa chinesa.

Mas as implicações que a decisão terá, nomeadamente em termos da esperada retaliação de Pequim sobre tecnologia norte-americana, não parecem justificar proclamações de vitória de nenhum lado. Sobretudo, tendo em conta que continuam a faltar evidências que suportem as suspeitas de espionagem que têm vindo a ser levantadas.

Até que essas provas sejam apresentadas, para muitos, a verdadeira "ameaça" da Huawei aos interesses dos Estados Unidos e dos seus aliados não será de segurança e sim comercial. O gigante das telecomunicações chinês não se tem afirmado apenas ao nível do mercado dos telemóveis mas também de todos os restantes equipamentos que suportam as redes móveis. De acordo com um relatório do grupo Del'Or, especializado em análises do mercado de telecomunicações, a empresa detinha no final do ano passado cerca de 28% do mercado do setor a nível mundial, com um avanço considerável sobre os principais rivais: a Nokia, a Ericsson, a Cisco e a também chinesa ZTE.

Falta saber se um possível tombo deste gigante beneficiará outras empresas ou se, pelo contrário, afetará todo um setor chave da economia mundial.

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