Comissão Eleitoral acusa campanha pró-brexit de ter feito batota

Mathhew Elliot, ex-líder do Vote Leave, indicou que a Comissão Eleitoral vai acusar a campanha do brexit de violar a lei eleitoral, tendo contornado os limites de financiamento em coordenação com a organização de jovens BeLeave

Numa investigação à campanha, à qual a BBC teve acesso, a Comissão Eleitoral estabelece que o Vote Leave excedeu os limites de financiamento, não apresentou todos os recibos e faturas, falhou em cumprir as regras estatutárias, teve um retorno impreciso dos gastos de campanha.

A Comissão Eleitoral deu 28 dias, ou seja, até 3 de julho, aos responsáveis da Vote Leave para apresentarem os seus próprios dados, indicou um porta-voz do organismo, citado pela BBC, sublinhando que "a decisão, invulgar, por parte do Vote Leave, em partilhar [tornando públicas] as conclusões iniciais da Comissão Eleitoral em nada altera o processo conforme está estabelecido na lei".

Em declarações à mesma televisão britânica, Matthew Elliott, ex-líder da campanha Vote Leave, queixou-se de parcialidade. "Só ouviram um lado da história. Disponibilizámo-nos para ir a entrevistas. Não aceitaram entrevistas do nosso lado", declarou, garantindo que o Vote Leave "sempre agiu dentro da lei e apenas trabalhou com outros grupos para encorajar as suas atividades".

Em causa está um financiamento do Vote Leave, na reta final da campanha para o referendo de 23 de junho de 2016, para o grupo de jovens BeLeave no valor de 625 mil libras, ou seja, 715 mil euros. Contornou, assim, o limite de sete milhões de libras (oito milhões de euros) de gastos na campanha para a consulta sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.

As dúvidas sobre a campanha pró-brexit surgiram quando, em março deste ano, Shamir Sanni, que ajudou a estabelecer o BeLeave, contou ao The Observer que o dinheiro dado ao grupo de jovens foi parar diretamente à Aggregate IQ.

Esta, segundo Christopher Wylie, trabalhou com a Cambridge Analytica para ajudar a campanha a favor da saída do Reino Unido da UE. O jovem canadiano, que chegou a ser ouvido durante quatro horas numa comissão do Parlamento britânico, declarou: "Se não tivesse havido batota, o resultado teria sido outro, do meu ponto de vista. Deixa-me furioso porque as pessoas apoiaram a campanha do Leave porque acreditavam na aplicação da lei e da soberania britânicas. E alterar a ordem constitucional deste país com base numa fraude é mutilar essa ordem constitucional".

O resultado do referendo de 23 de junho de 2016 foi 51,89% para o Sim e 48,11% para o Não. "O referendo foi ganho com menos de 2% dos votos e muito dinheiro foi gasto em publicidade na medida certa, com base em dados pessoais", afirmou Wylie, em entrevistas ao El País e Die Welt.

"Não trabalhei na campanha do brexit mas fui uma presença fantasma porque conhecia muita gente e ajudei a montar a empresa posta a serviço da campanha. Sabia tudo o que se passava. Coloquei-os em contacto e acompanhei o que faziam", garantiu, na entrevista.

Além do brexit, Wylie reclama também para a Cambridge Analytica, entretanto dissolvida, a intervenção a favor da eleição de Donald Trump em 2016. Tudo através do uso indevido de dados de 50 milhões de utilizadores do Facebook. Estas revelações deixaram o fundador do Facebook sob nova pressão. Mark Zuckerberg recusou ser ouvido no Parlamento do Reino Unido. Mas foi ao Congresso dos EUA e ao Parlamento Europeu.

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