"Combatemos em África e na Flandres acima de tudo para afirmar a república"

Entrevista à historiadora Ana Paula Pires, da Universidade Nova de Lisboa, especialista em Primeira Guerra Mundial. Amanhã faz cem anos que conflito terminou.

O assassínio em Sarajevo do herdeiro da Aústria-Hungria foi só o pretexto para uma guerra que as potências desejavam?

Uma guerra nunca é inevitável, e em 1914 não podemos esquecer que a Europa era um continente em paz.

De acordo com a tese do historiador Christopher Clark o caminho que conduziu a Europa à guerra no Verão de 1914 teve início onze anos antes, a 11 de Junho de 1903, quando 28 oficiais do exército sérvio invadiram o palácio real, em Belgrado, e assassinaram o rei Alexander e a rainha Draga. O assassínio de Alexander colocou um ponto final à dinastia pró-austríaca Obrenovic. Ironicamente uma pequena potência, a Sérvia, foi o rastilho que esteve na origem de uma guerra mundial.

Os sérvios ambicionaram a construção de "uma grande sérvia" e isso só foi possível após a conquista das províncias eslavas do Império Austro-Húngaro o que para suceder necessitou do apoio da Rússia; o ministro dos Negócios Estrangeiros de Nicolau II, Sergei Sazonov, era um acérrimo defensor da ideia de que a missão histórica da Rússia era proteger as nações balcânicas. Não nos podemos esquecer que as províncias da Bósnia e da Herzegovina tinham sido anexadas pela Áustria em outubro de 1908.

Ironicamente um ano antes de ser assassinado Francisco Fernando tinha lembrado ao comandante das Forças Armadas do Império Austro-Húngaro ser dever do governo preservar a paz. De uma forma genérica o início do conflito nos primeiros dias de agosto não deve ser analisado como uma consequência dos dois sistemas de alianças em que a Europa se encontrava dividida, mas antes a demonstração da sua fraqueza e a constatação da incerteza quanto ao papel que cada parceiro poderia vir ser chamado a desempenhar na respetiva aliança, assim um conflito de natureza regional acabou por se transformar num confronto continental.

Era imprevisível que o conflito durasse quatro anos?

Sim. As primeiras tropas quando partiram, sobretudo britânicas, afirmavam que a guerra estaria terminada antes do Natal, daí a célebre expressão "Over by Christmas".

O escritor britânico H.G. Wells escreveu mesmo que esta era a Guerra que iria acabar com todas as Guerras, sabemos bem como se enganou...

A Primeira Guerra Mundial tem por isso que ser analisada como uma tragédia e não como um crime.

A enorme mortandade desta Grande Guerra, mais tarde classificada de Primeira Guerra Mundial, deveu-se às novas tecnologias militares, dos aviões aos tanques?

Este foi o primeiro conflito moderno do século XX, foi também por isso, pelo desenvolvimento e pelo potencial tecnológico que utilizou que autores como Eric Hobsbawn consideram mesmo que foi a I Guerra Mundial quem inaugurou o século XX. O conflito de 1914-1918 beneficiou muito do desenvolvimento científico que tinha acontecido na chamada "Belle Époque", seja ao nível do armamento, para além dos tanques, os submarinos surgiram como arma pela primeira vez, mas também ao nível do desenvolvimento de armas químicas, o gás foi utilizado de forma massiva pela primeira vez também, é certo que já tinham existido algumas experiências iniciais na Guerra do Rif, mas não podem ser comparadas com o que aconteceu na Europa ao longo destes quatro anos.

Por outro lado, o desenvolvimento das telecomunicações, nomeadamente da T.S.F., permitiu que as tropas no terreno comunicassem de uma forma muito mais imediata.

Os impérios centrais eram claramente mais fracos ou a sua derrota não era uma certeza durante o conflito?

Os Impérios centrais não eram mais fracos a perceção da sua derrota foi bastante tardia e aqui o grande fator de desequilíbrio foi mesmo proporcionado pela revolução russa e pela entrada dos Estados Unidos da América na Guerra, em 1917.

Britânicos e franceses, velhos inimigos, mostraram querer ser aliados para o futuro?

Sim, desde a assinatura do tratado que esteve na origem da aliança anglo-francesa de 1904 - a Entente Cordiale - que tinham colocado um ponto final a um velho antagonismo abrindo caminho para uma cooperação diplomática, feita contra as ambições expansionistas da Alemanha, cada vez mais visíveis na Europa e em África.

A Alemanha do Kaiser nada tinha que ver com a futura Alemanha de Hitler, pois não?

Não. Em 1914 a unificação da Alemanha tinha-se completado há pouco mais de 40 anos, convém não esquecer...

O Reich era então um poderio industrial. Berlim era a sede de fábricas como a Siemens ou a Bayer, companhias que eram o polo agregador de centenas de refugiados que tinham escapado aos Pogroms da Europa de Leste e que buscavam novas oportunidades na Alemanha.

Berlim ambicionava rivalizar com capitais europeias como Paris ou Londres. Mark Twain comparou-a a Chicago como uma cidade cosmopolita sedenta do que era novo e moderno.

A revolução soviética de 1917, e a saída da Rússia da guerra, foi bem aproveitada pela Alemanha para atacar na frente ocidental?

A saída da Rússia da guerra foi aproveitada pela Alemanha para libertar unidades militares no leste e concentrar o seu poderio ofensivo na frente ocidental, o que se traduziu no lançamento de uma série de ofensivas durante a Primavera de 1918, em que se irá incluir a Batalha de La Lys. Estas ofensivas foram o último esforço da Alemanha para derrotar a Grã-Bretanha e a França. Por vários motivos em particular devido a uma série de erros táticos de comando, o exército alemão sofreu aproximadamente 1 milhão de baixas... e ficou sem capacidade para substituir esses homens. Soldados e oficiais estavam exaustos e desmoralizados.

No final do conflito Ludendorff foi mesmo acusado de ter optado por uma campanha militar condenada ao fracasso ao invés de tentar negociar a paz.

A entrada dos Estados Unidos na Guerra resolveu de vez o sentido do conflito?

A entrada dos Estados Unidos da América na Guerra foi decisiva. É preciso analisar o que tinha significado sobretudo para a Inglaterra e a França ter um exército em combate ao longo de quatro anos, o que isso significou ao nível da população masculina que era necessário mobilizar anualmente... do desgaste... Quando as tropas "frescas" dos Estados Unidos da América chegaram e as primeiras vitórias militares se verificaram houve redobrado ânimo do lado dos Aliados.

No que diz respeito aos Estados Unidos da América a Grande Guerra contribuiu, também, para a sua afirmação que se mantém até aos dias de hoje do país como a primeira grande potência económica e financeira a nível global destronando o papel que até então era ocupado pela Grã-Bretanha, de quem, curiosamente, no final da Guerra passou a ser credora.

Portugal combateu em África na Flandres para salvaguardar o império colonial?

Essa é uma das teses clássicas que desde os anos 90 se utilizam para justificar a entrada do País na Guerra, se quisermos e se olharmos estritamente para o espetro político nacional a defesa do império colonial português foi o único elemento, relativo ao envolvimento na guerra, que foi capaz de unir os republicanos que se encontravam divididos desde o início do conflito.

É preciso também olhar para o que era o império colonial português, em África, nesta altura, porque, ironicamente apesar do discurso nacionalista da República quanto à reivindicação e posse destes territórios, a verdade é que o regime até ao final da Primeira Guerra Mundial pouco fez para os desenvolver, pouco os conhecia... só a título de curiosidade nenhum dos ministros das Colónias tinha visitado qualquer território colonial entre 1914 e 1926.

Quando a Grande Guerra tem início na Europa e tendo Portugal territórios que faziam fronteira com colónias alemãs e britânicas, resolveu enviar de imediato duas expedições, uma para Angola e outra para Moçambique, justamente para garantir que estes não eram divididos quer pela Alemanha quer pela Grã-Bretanha. Não nos podemos esquecer que apesar de estar em Paz com a Alemanha até março de 1916, desde setembro de 1914, que Portugal combatia em África.

Eu creio, no entanto, que Portugal combateu em África e na Flandres, acima de tudo para afirmar politicamente um regime, que tinha sido implantado há apenas quatro anos - a República - numa Europa maioritariamente monárquica.

A entrada de Portugal na frente europeia de guerra acabou assim por estar muito associada àquilo que era a vontade política de Afonso Costa e do Partido Democrático que se manteve no poder durante boa parte destes anos e que passou, também por essa afirmação.

La Lys foi mesmo uma humilhação nacional?

Acho que não se deve ler La Lys como uma humilhação nacional, o Estado Novo veiculou muito essa leitura associando-a sempre ao caos político com que descrevia a I República. La Lys foi a grande derrota do Corpo Expedicionário Português (C.E.P), derrota que se traduziu na sua completa destruição....

Para perceber a derrota de La Lys temos de a contextualizar e olhar para o que era o C.E.P. nas vésperas da batalha; uma força desmoralizada, cujos homens, que se encontravam nas primeiras linhas, não eram substituídos há vários meses, encontrando-se, portanto, desgastados física, moral e psicologicamente.... A isto há ainda que juntar as consequências da revolta que tinha levado Sidónio Pais ao poder em dezembro de 1917 e o desinvestimento que tinha sido colocado na participação na guerra na Europa atrasando, por exemplo, a rotação de tropas entre Portugal e a Flandres.

O poderio bélico que foi concentrado pelas tropas do Kaiser no sector em que o C.E.P. se encontrava em Abril de 1918 tornou impossível qualquer forma de reação.

Como afetou a guerra a vida em Portugal do ponto de vista social? Houve escassez?

A guerra teve impactos tremendos a nível social, e aqui vemos também o caráter moderno deste conflito de que falamos há pouco. O conflito de 1914-1918 afetou, diariamente, a vida do cidadão comum, em Lisboa, Berlim, Paris ou Nova Iorque, a Guerra trouxe a fome e a escassez para dentro de casa, fazendo-a uma experiência transversal um pouco por todo o Mundo. Convém olharmos também para o que era o Mundo em 1914, uma realidade interconectada ao nível dos transportes, das telecomunicações e, logicamente, da circulação de mercadorias ora, se Lisboa estava dependente da importação de matérias-primas essenciais como o trigo (elemento base do pão que era maioritariamente consumido pela população e Lisboa) e se porque os navios que o traziam da Crimeia ou dos Estados Unidos da América já não o podiam fazer, ou porque eram afundados por submarinos ou porque eram necessários para transportar as tropas para as frentes de combate, a escassez era inevitável... Depois da escassez vem a fome e com ela as greves e a contestação social. Lisboa ao longo destes anos era uma cidade extremamente violenta, menciono apenas a Revolta da Batata de Maio de 1917 em que a população lisboeta assaltou de forma espontânea lojas em busca de comida...

A república estava dividida em relação à guerra?

A República nunca esteve unida relativamente ao envolvimento de Portugal na frente europeia de guerra. O não estar unida teve reflexos óbvios, desde logo, pelas divisões que causou entre a população que o regime nunca conseguiu mobilizar para a necessidade de apoiar o esforço de guerra, por um lado, por outro, e refletindo essa divisão também os militares se encontravam, em alguns casos, descontentes relativamente a uma intervenção em França...Como é que seria possível sustentar uma campanha cujo esforço era imenso sem este consenso e sem a motivação dos militares?

Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal, em Março de 1916, e foi constituído o governo de União Sagrada, esse governo que se pretendia de concentração nacional esteve longe de o ser, integrando apenas membros dos dois principais partidos da República: o Partido Democrático e o Partido Evolucionista.

O fim dos impérios alemão, russo, austro-húngaro e otomano e o surgimento de várias repúblicas em 1917/1918 foi surpreendente?

Não foi surpreendente... foi o resultado mais óbvio da desagregação desses três impérios e das reivindicações que se vinham fazendo sentir no seu interior há vários anos.

Porque não quiseram os americanos seguir Woodrow Wilson e desistiram da SDN?

Não foram só os americanos que desistiram... a Sociedade das Nações teve pouco sucesso desde logo pelo pouco investimento feito pela Europa. Excluir a Alemanha de um projeto que se propunha de promoção de relações de cooperação, de manutenção da paz e segurança coletiva sancionando-a duramente dificilmente poderia resultar

Os americanos remeteram-se ao isolacionismo, mas não podemos esquecer os matizes dessa opção, sublinhando desde logo a enorme empresa humanitária que levaram a cabo, liderada por Herbert Hoover, não só no auxílio prestado à Bélgica durante os anos da Guerra, mas também à Rússia, após a Revolução de Outubro, enviando alimentos, roupas, auxiliando órfãos e deslocados.

Que erros no armistício de 1918 tiveram responsabilidades na Segunda Guerra Mundial?

O armistício de novembro de 1918 não só esteve longe de colocar um ponto final à I Guerra Mundial como fez com que alguns países, como a Itália por exemplo, apesar de vencedores se tivessem sentido derrotados, os fascismos que surgiram no início da década de 30 alimentaram-se disso mesmo. Creio que a culpa colocada sobre a Alemanha responsabilizando-a pelo início do conflito e todas as reivindicações que lhe foram feitas sobretudo ao nível do pagamento de reparações de Guerra, já em Paris durante a conferência da Paz, tornaram, claramente impossível o início de um ciclo de Paz, um outro conflito tornou-se desde cedo inevitável.

Como historiadora, sente que há ainda muito por explicar do que foi esta guerra de 1914-1918?

Sem dúvida, mas sinto também que houve desde 2014, quando a guerra começou, bastante "a reboque" do centenário, a ser estuda com mais profundidade em Portugal, uma grande evolução. Até lá a historiografia portuguesa, com muito poucas exceções, tinha permanecido focada no estudo das razões da entrada de Portugal na Guerra, e depois na análise do final da I República relacionando-a com o envolvimento de Portugal no conflito e com as suas consequências políticas. Olhando para o ano de 2018 vemos que se começou a analisar a guerra sob outros prismas; os seus impactos na música, na pintura, na medicina ou mesmo no desporto e na forma como a atividade física passou a estar associada ao bom desempenho de um soldado no campo de batalha.

Mas há tanto para explorar ainda... desde logo a dimensão humanitária do conflito, a que me tenho dedicado mais recentemente, ou aos diferentes impactos da Grande Guerra nas colónias tanto nos colonos europeus que lá viviam, como nos africanos que combateram ao lado de Portugal, dimensões pouco ou nada exploradas.

Quantas monografias tem sido publicadas um pouco por todo o País com o apoio das autarquias procurando estudar o impacto da Guerra a nível local e fazendo a identificação dos combatentes desses municípios, este é um avanço muito positivo, a recuperação desta memória e a sua divulgação.

Um dos aspetos mais positivos do centenário da Grande Guerra é, em meu entender, a forma como este tem contribuído para a transformação da imagem que temos da Guerra, desde logo pela recuperação e pela análise que tem proporcionado da experiência bélica do cidadão comum. Esta Guerra faz parte da história de vida do nosso avô ou bisavô que partiu da sua terra natal para ir combater para Angola, Moçambique ou para a Flandres, esse é um dos fatores que a torna tão presente ainda cem anos passados.

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