Com Perez, democratas unem-se para tirar Trump da Casa Branca

Primeiro latino a presidir ao partido, o ex-secretário do Trabalho escolheu para vice o muçulmano Keith Ellison, segundo na votação.

De um lado Tom Perez, ex-secretário do Trabalho, falado para vice de Hillary Clinton e apoiado pelo ex-presidente Barack Obama. Do outro Keith Ellison, primeiro muçulmano eleito para a Câmara dos Representantes dos EUA, liberal do Minnesota e apoiado pelo autodenominado "socialista democrático" Bernie Sanders. Na corrida à presidência do Partido Democrata, mais do que um choque entre duas pessoas, eram duas correntes que se defrontaram neste fim de semana: a centrista moderada e a radical de esquerda. No fim ganhou Perez, que se tornou o primeiro latino a ocupar o cargo. E, num esforço de união, o novo líder do partido logo escolheu o rival para número dois.

A menos de dois anos de umas intercalares em que os democratas sonham reconquistar o Congresso aos republicanos e a quatro de evitarem um segundo mandato presidencial de Donald Trump, toda a união é pouca diante da dimensão da tarefa. Em 2018 vão a votos um terço dos senadores e todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, com os republicanos neste momento a dominarem ambas as câmaras.

"Vão perguntar-nos: onde estavam em 2017, quando tínhamos o pior presidente da história dos EUA? E nós vamos poder responder que unimos o Partido Democrata e que esse presidente só cumpriu um mandato", garantiu Perez, de 55 anos, diante dos delegados democratas. De origem dominicana - o pai ganhou a nacionalidade americana ao alistar-se no exército na II Guerra Mundial -, Perez conseguiu 235 votos, contra os 200 de Ellison.

Após a derrota, o congressista - criado como católico mas convertido ao islão desde os 19 anos - apressou-se também a apelar à união. Defensor de tentar um impeachment (processo de destituição) contra Trump, Ellison promete não deixar Trump "roubar a mensagem dos democratas". "Peço que façam todos os possíveis para apoiar o Sr. Perez. Não nos podemos dar ao luxo de deixar esta sala divididos", garantiu o afro-americano de 53 anos.

E não podem mesmo. Em novembro Hillary Clinton perdeu a Casa Branca para Trump muito devido à incapacidade do partido para apelar à classe média branca, descontente com o rumo de uma economia que apesar de crescer não tem melhorado a sua vida. Apesar de a ex-primeira-dama ter tido mais três milhões de votos populares do que o rival republicano, no Colégio Eleitoral, onde se decidem as presidenciais americanas, teve menos grandes eleitores, com Trump a conquistar estados como o Michigan ou o Wisconsin.

Trump apressou-se a reagir à eleição de Perez. No Twitter, como é seu costume, o presidente escreveu primeiro: "Parabéns a Thomas Perez, que acaba de ser nomeado presidente do Partido Democrata. Não podia ficar mais feliz por ele, ou pelo Partido Republicano!" Uma mensagem irónica ao final da noite de sábado a que se seguiu ontem logo pela manhã uma em que denuncia ter havido fraude no processo de eleição dos democratas: "A corrida a presidente do Partido Democrata, claro, foi totalmente "manipulada". O tipo do Bernie, como o próprio Bernie, nunca teve qualquer hipótese. Clinton exigia Perez."

Nos EUA, o presidente do partido não é, como em muitos países europeus, o rosto da oposição. Esse papel é desempenhado pelos líderes da oposição no Senado e na Câmara dos Representantes. Mas, se não vai fixar sozinho a estratégia partidária, a verdade é que Perez terá um papel essencial na recolha de fundos e na gestão dos recursos a nível nacional, tendo acesso às bases de dados de eleitores. Responsável pela organização das primárias do partido, a então presidente dos democratas, Debbie Wasserman Schultz, acabou por se demitir devido a acusações - contidas numa série de e-mails divulgados pela WikiLeaks - de que teria favorecido Hillary Clinton em detrimento do rival, o senador do Vermont Bernie Sanders.

Com Perez na liderança, o partido olha para a frente. Foi isso mesmo que Barack Obama deixou claro na sua mensagem de felicitações ao seu ex-secretário do Trabalho. O ex-presidente saudou o "amigo" e disse estar convencido de que Perez vai "fazer emergir uma nova geração de líderes". Com uma longa lista de potenciais candidatos às presidenciais de 2020 (ver texto ao lado), a prioridade agora são mesmo as intercalares do próximo ano.

Num artigo na Vanity Fair, o editor de política da revista, T.A. Frank, explica que, se querem recuperar o Congresso e depois a Casa Branca, há erros que os democratas não podem cometer. A começar por acreditar que Trump irá "fazer tanta confusão" que basta esperar que as coisas lhe corram mal. Para Frank, os democratas precisam de oferecer "um contraste claro" com os republicanos e "definir o seu rumo", seja na economia, no comércio, em questões sociais ou na política externa. O jornalista recorda ainda que, se decidirem declarar guerra aberta a Trump, os democratas podem acabar por ter de sacrificar várias das suas políticas, que o presidente - como outsider da política - até poderia concordar em adotar se servissem os seus interesses, sem se preocupar com divisões partidárias.

Empenhados em mostrar a imagem da união, com Perez e Ellison a trabalharem juntos, os democratas apostam para já em tirar partido do descontentamento popular que levou milhões de pessoas às ruas no último mês em manifestações anti-Trump.

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