Ciudadanos a crescer pressiona Rajoy após eleição de líder catalão

Tomada de posse de Quim Torra abrirá a porta ao fim da aplicação do artigo 155.º, que suspendeu autonomia na Catalunha

Quase cinco meses depois das eleições, o deputado Quim Torra foi ontem eleito presidente da Generalitat, com 66 votos a favor, 65 contra e quatro abstenções no Parlamento catalão, abrindo a porta ao fim da intervenção do governo espanhol na Catalunha. Torra prometeu trabalhar "incansavelmente" para a construção da República e admitiu que o seu mandato é "provisório" até ao regresso do antecessor, Carles Puigdemont, que considera o presidente legítimo. Declarações que já levaram o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, em alta nas sondagens em Espanha, a pedir ao primeiro-ministro Mariano Rajoy que mantenha a aplicação do artigo 155.º da Constituição espanhola.

Quim Torra, de 55 anos, foi o quarto candidato a presidente da Generalitat desde as eleições de 21 de dezembro. O nome do editor e ex-membro da direção das organizações independentistas Òmnium Cultural e Assembleia Nacional Catalã foi proposto por Puigdemont, que está em Berlim a aguardar a decisão sobre a sua extradição para Espanha - é acusado de rebelião e sedição na organização do referendo de 1 de outubro e consequente declaração unilateral de independência. Torra visita hoje Puigdemont, no primeiro ato oficial após o debate de investidura em que foi eleito com os votos do Junts per Catalunya e da Esquerda Republicana e a abstenção dos quatro deputados da Candidatura de Unidade Popular.

"Pedimos a Rajoy que corrija já: perante o desafio constitucional de Torra e Puigdemont é preciso estender a aplicação do 155.º de maneira efetiva para garantir os direitos de todos os espanhóis", escreveu Rivera no Twitter. Esse artigo, que na prática suspendeu a autonomia da Catalunha, foi aprovado no Senado espanhol a 27 de outubro, com os votos do Partido Popular de Rajoy, do Ciudadanos de Rivera e dos socialistas de Pedro Sánchez, poucas horas depois de o Parlamento catalão ter votado a independência. Rajoy encontra-se hoje com Sánchez e na quinta-feira com Rivera.

Ontem, o PSOE mostrou-se disponível para voltar a aplicar o artigo 155.º caso seja necessário. "Agora que já passámos por essa experiência. Custa mais a primeira do que a segunda. Voltar a colaborar ou ratificar a resposta constitucional não constitui para nós nenhum esforço", disse o secretário de Organização do PSOE, José Luis Ábalos.

Rajoy aposta no entendimento

O primeiro-ministro aposta "no entendimento e na concórdia" com o novo presidente da Generalitat, que deverá tomar posse depois de a sua eleição ser publicada no Boletim Oficial (equivalente ao Diário da República). "Não gostei do que ouvi nas últimas horas, mas, como já disse, vou julgar os factos", afirmou Rajoy numa breve declaração em Segóvia, referindo-se ao discurso de Torra. Contudo, apelou à tranquilidade (num recado também para Rivera), lembrando que garantirá sempre o cumprimento da lei.

De passagem por Lisboa, o chefe da diplomacia espanhola, Alfonso Dastis, pronunciou-se no mesmo sentido. "Estamos dispostos a garantir que, no seu desempenho como presidente, vai respeitar o ordenamento constitucional espanhol e trabalhar pelo regresso da normalidade à Catalunha", disse ao DN. "Se não for assim, o governo de Espanha tem instrumentos, como já mostrou, para assegurar que se continuará a respeitar a democracia e o Estado de direito", concluiu à margem do VII Encontro Triângulo Estratégico: América Latina - Europa - África, organizado pelo Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas.

Ciudadanos e Podemos à frente

No poder desde dezembro de 2011, o tempo de Mariano Rajoy parece estar a chegar ao fim - pelo menos segundo as sondagens. O barómetro de maio da Metroscopia, para o jornal El País, revela que 55% dos espanhóis consideram que seria melhor ter eleições o quanto antes, face a 40% que consideram o contrário.

Se essas eleições fossem hoje, o Ciudadanos seria o mais votado - um cenário que se repete desde a vitória histórica na Catalunha, que foi contudo insuficiente para governar. O partido de Rivera continua a crescer e surge com 29,1% das intenções de voto, indo buscar muito eleitorado ao PP, o que mostra que a sua estratégia está a resultar. O Unidos Podemos, de Pablo Iglesias, é o segundo, com 19,8%. Pela primeira vez, os partidos emergentes batem os partidos tradicionais: ultrapassam o PP, que continua em queda, com 19,5%, e o PSOE, com 19%.

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