Ciro Gomes é candidato que mais ganha com prisão de Lula

A seis meses das presidenciais, prisão do líder das sondagens muda xadrez eleitoral. Ex-governador do Ceará herdará mais votos.

A contagem decrescente para as eleições de 7 de outubro começa hoje, seis meses exatos antes das presidenciais, quando quem quiser concorrer é obrigado a estar já filiado a um partido. Com Lula da Silva, que liderou todos os cenários de primeira e segunda voltas nas sondagens, praticamente afastado da corrida na sequência da decisão do juiz Sergio Moro, o xadrez eleitoral reorganiza-se. E quem vai beneficiar mais da ausência do carismático antigo presidente e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT)?

A resposta, segundo os especialistas, é "todos". Mas se for pedido para individualizar, o professor e cientista político da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) Michael Mohallem, aposta em Ciro Gomes, candidato do Partido Democrático Trabalhista (PDT). "Candidato de esquerda já consolidado, é o provável principal herdeiro dos votos de Lula, ou da maior parte", diz ao DN.

Rui Tavares Maluf, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, concorda: "Ciro é quem pode devorar a maioria dos votos de Lula mas a tendência é de dispersão, inclusive para os nulos e brancos", acrescenta à BBC Brasil. "Os candidatos ex-ministros de Lula [Ciro, Marina Silva, do Rede Sustentabilidade, e, eventualmente, Fernando Haddad, pelo PT] são herdeiros de Lula mas não só", defendem Mauro Paulino e Alessandro Janoni, os diretores do instituto de sondagens Datafolha.

Os candidatos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Guilherme Boulos, e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela D"Ávila, até estão mais próximos de Lula na ideologia do que Ciro, assinalm os analistas. "Mas poucos eleitores de Lula estão dispostos a votar tão à esquerda", diz Maluf. "E Boulos e Manuela são candidatos a chegar apenas a uns 5%, Ciro é mais competitivo", acrescenta Mohallem.

Para Ciro Gomes, que além de ministro de Lula, foi terceiro classificado nas eleições de 1998, prefeito de Fortaleza e governador do Ceará, conseguir capitalizar os votos do agora candidato detido seria essencial o apoio formal do PT. Esse apoio está em cima da mesa, em forma de uma candidatura de Fernando Haddad, quadro do PT com potencial eleitoral, a vice-presidente na lista de Ciro. "Um dream team", classificou o próprio Ciro. "No passado, o Ciro abdicou de se candidatar para apoiar Lula e o PT por isso agora cobra uma retribuição só que o PT tem uma tendência hegemónica e de protagonismo, esse é o entrave", lembra Mohallem.

Outro beneficiado lógico da ausência do líder nas sondagens é o próprio Haddad, que já foi há semanas "mandado para aquecimento" por Lula, de acordo com artigo no jornal Folha de S. Paulo, prevenindo a rejeição do habeas corpus e o despacho de Moro dos últimos dias.

Incógnita Bolsonaro

E Bolsonaro? Nas sondagens que excluem Lula é ele quem aparece na frente. "E até pode haver transferência de votos, poucos, é certo, mas ainda alguns, diretamente de Lula para Bolsonaro", diz Mohallem, tendo em conta estudo recente da FGV. "São votos não ideológicos de pessoas que tiveram melhorias de vida na gestão Lula e agora acreditam que Bolsonaro, por também ser popular, pode fazer o mesmo por elas".

O senão de Bolsonaro é o povoamento excessivo do campo da direita e do centro-direita. "Três candidaturas que se anunciaram nas últimas horas prejudicam-no", afirma o cientista político da FGV, referindo-se a Flávio Rocha, empresário conservador que vai concorrer pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), Joaquim Barbosa, ex-juiz do STF com fama de justiceiro, a um passo de ser anunciado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), e o presidente da República Michel Temer, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que acabou de se decidir por intervenção militar no Rio de Janeiro, a área de expertise do capitão na reserva. E depois, há Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). "Alckmin, embora pertença a partido de centro-direita, representa a ala mais à direita no PSDB".

Finalmente a eterna incógnita Marina Silva, do Rede Sustentabilidade. Com capital ético - está a salvo de escândalos de corrupção - pode apresentar-se como alternativa mas dificilmente com votos pedidos por Lula. "Terá sempre alguns mas poucos, depois de em 2014 ter apoiado Aécio Neves contra Dilma Rousseff na segunda volta".

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