Cimeira das Coreias: os obstáculos a superar para chegar à paz

Líderes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, Moon Jae-in e Kim Jong-un, respetivamente, reúnem-se amanhã em Panmunjom na Zona Desmilitarizada

Depois da tempestade (teste de mísseis balísticos por parte do regime norte-coreano no ano passado e troca de acusações entre o seu presidente e o dos Estados Unidos) veio uma certa bonança (desanuviamento que começou com a ida aos Jogos Olímpicos de Inverno em solo sul-coreano e amanhã culminará na realização da terceira cimeira inter-coreana em 18 anos). Falta ver se depois deste encontro entre Kim Jong-un e Moon Jae-in, na zona desmilitarizada, surgirá finalmente a paz, uma vez que as duas Coreias continuam tecnicamente em guerra desde 1953. Por muitos sorrisos e apertos de mão que se possam dar, fotografias que se possam tirar, a verdade é que há obstáculos importantes a ultrapassar para se chegar oficialmente a esse estado de paz.

A desnuclearização da Coreia do Norte de Kim Jong-un é um dos obstáculos chave a superar. No dia 21 o líder do regime de Pyongyang indicou que se compromete com o abandono do nuclear e que abdica de uma das condições que o seu país sempre pôs ao diálogo: a retirada dos cerca de 28 mil militares norte-americanos. "Os norte-coreanos não apresentaram nenhuma condição que os EUA não possam aceitar, tal como a retirada das tropas americanas da Coreia do Sul", disse o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, acrescentando que "eles apenas falam sobre o fim das hostilidades contra seu país e obter garantias de segurança". Mas irá Kim Jong-un concordar com um plano de verificação internacional da desnuclearização e com um desarmamento total? O significado e o alcance da desnuclearização é, por isso, um assunto chave, consideram os analistas.

Por outro lado, os Estados Unidos, liderados por Donald Trump, recusam qualquer retirada das tropas que têm na Coreia do Sul, há mais de seis décadas. A sua presença sempre irritou Pyongyang. Dependendo de como correr a cimeira inter-coreana de amanhã (as anteriores foram em 2000 e 2007), Trump poderá reunir-se com Kim, possivelmente em maio. Segundo fontes oficiais citadas pela Reuters, o presidente norte-americano tenciona nomear para o posto de embaixador na Coreia do Sul o almirante Harry Harris. O lugar está vago desde janeiro de 2017.

Tanto os EUA como a China teriam que ser parceiros num eventual tratado de paz a ser assinado no futuro entre as Coreias, uma vez que ambos os países foram signatários do armistício que pôs fim à Guerra da Coreia. Esta durou entre 1950 e 1953 e fez pelo menos um milhão de mortos. Como nunca foi assinado esse tratado, tecnicamente as Coreias continuam até hoje em guerra. Os dois países são divididos pela chamada Zona Desmilitarizada. Aí será realizada amanhã, em Panmunjom, a cimeira entre os líderes coreanos. Kim Jong-un será o primeiro presidente coreano a atravessar para o lado da Coreia do Sul desde o fim da Guerra da Coreia. A questão espinhosa é a de saber se Pyongyang está disposta a assumir a sua responsabilidade nessa guerra. Apesar do cessar-fogo, ao longo dos anos choveram trocas de acusações de violações de ambas as partes, houve deserções, estratégias deliberadas de propaganda. Aliás, só esta semana se calaram os altifalantes que, dia e noite, emitiam conteúdos que promoviam um regime em detrimento do outro.

Além de tudo isto, há ainda que ter em conta as sanções impostas ao longo dos anos por EUA, ONU e União Europeia, que danificaram a economia norte-coreana. A reunificação é cada vez menos a preocupação principal, pelo menos entre os sul-coreanos. Segundo o Unification Perception Survey da Universidade Nacional de Seul, 53,8% dos sul-coreanos considera a reunificação necessária, 24,7% impossível, 13,6% possível em dez anos, 2,3% possível em cinco anos.

Na preparação da cimeira, o presidente Moon Jae-in deu vários sinais de boa vontade. Nada foi deixado ao acaso. Nem o menu. Este inclui pratos alusivos aos locais da juventude dos dois líderes, de outros presidentes sul-coreanos ou figuras públicas de relevo. Houve porém um dos pontos do menu que desagradou ao vizinho Japão: o da sobremesa de manga. No chocolate que acompanha a mousse está um mapa da península coreana reunificada e este inclui as ilhas dos rochedos de Liancourt, disputadas entre coreanos e japoneses. O caso motivou protesto formal.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.