"Chamando os bois pelos nomes: a maior ameaça às eleições europeias é a Rússia"

O Parlamento Europeu debateu as medidas que vão ser tomadas para impedir que as próximas eleições sejam "manipuladas" por fake news

Na contagem decrescente para as eleições europeias, o Parlamento Europeu prepara-se para enfrentar um inimigo que não é novo mas do qual nunca se falou tanto. O termo usado esta quarta-feira em Estrasburgo, num hemiciclo pouco mais do que deserto, foi "campanhas de desinformação". O que significa que a discussão girou em torno das "fake news".

Entre os partidos europeístas não houve dúvidas em classificar a disseminação de notícias falsas como uma "atividade criminosa" que "passou das marcas" e está "a pôr a democracia em causa".

Para os eurocéticos, os esforços de Bruxelas para combater as notícias falsas não passam de uma estratégia de "quem sabe que vai perder as eleições e precisa de um bode expiatório".

"Rússia", "Cambridge Analytica" e "trolls" foram algumas das palavras mais proferidas no debate desta tarde, que abriu em português. Coube ao eurodeputado Paulo Rangel a intervenção mais longa da sessão.

"No mundo digital, as ameaças que ocorrem à transparência e aos pilares da democracia não são virtuais, são reais. É fundamental revermos o nosso modo de agir, face à experiencia dos últimos anos, com suspeitas em relação ao que aconteceu no Brexit, nos EUA, na independência da Catalunha, onde que verificámos que houve interferência, mas cujo autor e desígnio não conseguimos identificar", afirmou o eurodeputado do PPE.

Sublinhando que, apesar de tudo, a Europa já deu o primeiro passo nesta luta, com o regime de proteção de dados, Rangel destacou que "é preciso ir ainda mais longe".

Apesar do tema central do debate ser "a influência de agentes externos nas eleições europeias", Paulo Rangel alertou que "não podemos ter ilusões", porque as ameaças também vêm de dentro.

"Os adversários da democracia não são só as potencias estrangeiras. Há grupos nas nossas fronteiras com os mesmos desígnios". Para o eurodeputado, Bruxelas deve agir em duas frentes para evitar que as próximas eleições europeias sejam alvo de manipulação: "proteger dos dados dos cidadãos e punir criminalmente" os perpetradores dos ataques.

Foi também essa a mensagem da Comissária Europeia da Justiça, Vera Jourová, que lembrou que até 2020 há 15 eleições nas União Europeia que é preciso "proteger".

"O escândalo da Cambdridge Analytica revelou com que facilidade os dados podem ser manipulados. Há razões para termos receio da interferência da Rússia nas eleições. Temos de trabalhar com as plataformas digitais, com o cuidado de não restringir a liberdade de expressão", apelou Jourová.

Em relação a medidas concretas, falou da criação de uma rede de cooperação, a nivel nacional e europeu, da adoção de recomendações para mais transparencia, da aplicação de regras de cibersegurança e da disseminação de campanhas de sensibilização. "É importante que isto esteja em vigor antes das proximas eleições", reforçou a comisária.

Já no tempo reservado às intervenções dos partidos, o Parlamento Europeu dividiu-se em duas fações. A dos moderados e europeístas, que apelou à adoção "urgente" de medidas que vão além das palavras, e não se coibiu em apontar a Rússia como inimigo número um da Europa nesta matéria.

"Se não chamarmos os bois pelos nomes estaremos a falhar. A principal ameaça às eleições europeias é a Rússia", afirmou Pavel Telicka do ALDE.

Pavel Svoboda, do PPE, foi mais longe ao declarar que a Europa "está em guerra com a Rússia" e Jeppe Kofod, do S&D atirou que "é importante saber quantos assentos terá a Rússia neste parlamento após as próximas eleições".

Já o lado da barricada que junta os deputados eurocéticos preferiu acusar a União Europeia de estar a usar as "fake news" como bode expiatório para justificar "uma derrota que se adivinha".

"Há uma elite que não quer reconhecer que falhou. Não devemos culpar a Rússia pelos resultados das próximas eleições, que não vos vão agradar", proferiu Patrick O"Flynn, do EFDD.

"Acho que o presidente russo deve rir-se dos poderes paranormais que lhe são atribuídos. Porque não acusar os marcianos de interferirem nas eleições também?", interrogou Jacques Colombier, do ENF.

O debate surgiu na sequência da resolução aprovada pelo Parlamento no passado dia 25 de outubro, na qual os eurodeputados salientaram a necessidade de adaptar as leis eleitorais à realidade digital. As próximas eleições europeias realizam-se entre 23 e 26 de maio de 2019.

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