Cessar-fogo frágil deixa civis à espera para sair de Aleppo

Trégua foi interrompida e ontem retomada ao final da tarde, depois de nova negociação entre Rússia e Turquia. Início da evacuação estava previsto para hoje de madrugada

Nada é a preto e branco na Síria. Talvez sejam mais de 50 os tons de cinzento. Ainda assim, para o Ocidente, os rebeldes eram os bons que queriam derrubar o mau, chamado Bashar al-Assad, o presidente sírio. "Fez sentido por razões políticas que os líderes ocidentais tenham tentado construir uma narrativa simples, mas a realidade é muito mais complexa", diz ao DN Jonathan Cristol, especialista em Médio Oriente do think tank norte-americano World Policy Institute.

O mesmo analista explica que entre os rebeldes existem distintos grupos - alguns ligados à Al-Qaeda - e com objetivos conflituantes. "Este é um dos motivos para o falhanço do cessar-fogo. Era impossível que aguentasse com tantos grupos em confronto que não foram chamados para as negociações."

O xadrez de alianças, de inimigos e de interesses que se joga no tabuleiro da guerra civil síria é intrincado. Há quem dê as mãos para um objetivo e no dia seguinte aponte espingardas mutuamente. No início da guerra, a administração de Barack Obama defendeu que Assad tinha de sair. "Se os EUA não tivessem insistido nessa linha, talvez tivesse sido possível negociar um acordo aceitável para todas as partes", defende Cristol. Ainda para o mesmo especialista, o facto de os EUA terem definido uma "linha vermelha" - que era a utilização de armas químicas -, não tendo depois agido quando essa linha foi violada por Assad, também não ajudou. Foi algo que mostrou ao mundo que os EUA não estavam interessados em liderar a resolução do problema. "Dito isto, não me parece que se possa culpar o Ocidente pelas origens da guerra e os EUA não foram os únicos a abandonar a Síria. Há muitas culpas a distribuir", assinala o investigador de Washington.

Evacuação atrasada

Nos últimos dias, Aleppo tem feito manchetes em todo o mundo. A ONU fala num "desmoronar da humanidade". Na terça-feira, surgiu uma luz ao fundo do túnel, depois de um cessar-fogo negociado entre Rússia e Turquia. Com o acordo conseguido, os habitantes e os combatentes que se encontram nos redutos ainda controlados pelos rebeldes estavam autorizados a sair. Foi esperança de pouca dura. Ontem as bombas voltaram a cair e os planos para a evacuação dos civis acabaram abortados. Para a ONU, os ataques que travaram a saída dos civis "configuram muito provavelmente crimes de guerra".

Os líderes da Rússia e da Turquia - Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan - voltaram ontem a conversar por telefone e acordaram, mais uma vez, em fazer um esforço conjunto. Ao final da tarde os rebeldes falavam na retoma do cessar-fogo e ficou previsto que a evacuação começasse de madrugada. Civis e combatentes deverão ser transportados em autocarros para a província de Idlib, nas mãos dos insurgentes.

Mas, tendo em conta que esta operação será feita sem a supervisão da ONU, até que ponto as pessoas estarão seguras? Será possível que o mundo assista a uma repetição de Srebrenica - quando os muçulmanos-bósnios, em 1995, foram retirados do enclave e levados para a morte em execuções coletivas? "Isso é certamente possível. A situação em Aleppo pode prolongar-se até que não haja mais ninguém para matar", responde Jonathan Cristol. Ainda assim, o analista ouvido pelo DN sublinha que Vladimir Putin não quererá que assim seja. "Para a Rússia será mais interessante se as populações se juntarem à onda de refugiados e levarem mais desestabilização para a Europa".

Na Síria, a única certeza é que não há inocentes. "É tempo de dizer a outra verdade, que muitos dos rebeldes que têm sido apoiados pelo Ocidente são dos mais cruéis e impiedosos combatentes", escreve Robert Fisk, jornalista do The Independent, correspondente na região.

"Todas as guerras acabam e esta não será exceção, mas não chegará ao fim com Aleppo. Estou convencido de que em algum momento, quando já não restar mais ninguém vivo, será negociado um cessar-fogo que dará à Rússia, a Assad e ao Irão mais ou menos o que eles querem", termina Cristol.

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Betinho

"NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus há seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.