Cenas de Guerra Fria entre caças russos e 'destroyer' americano

Incidente teve "agressividade como não víamos há muito", disse porta-voz dos EUA. Casos têm-se multiplicado desde 2014.

Dois caças-bombardeiros Sukhoi Su-24 realizaram uma série de voos rasantes junto ao destroyer americano USS Donald Cook em águas internacionais do mar Báltico quando o navio viajava da Polónia para a Lituânia, com um helicóptero daquele primeiro país a bordo. Os voos sucederam na segunda e terça-feira e um deles "simulou um ataque direto" ao navio, tendo o Su-24 passado a pouco mais de nove metros da proa, revelou ontem um porta-voz militar dos EUA.

Para este porta-voz, as ações russas revestiram-se de "uma agressividade como não víamos há muito" e "encerram o potencial para originar uma desnecessária escalada de tensões". Por seu lado, o comandante do navio, Charles E. Hampton, declarou que as manobras dos aviões russos não corresponderam aos "padrões internacionais e incompatíveis" com as regras de conduta em águas internacionais. Para o porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, "foram observados todos os procedimentos de segurança", justificando a atuação dos Su-24 com a "proximidade operacional da base naval russa no Báltico". Esta encontra-se situada no enclave de Kalininegrado, entre a Lituânia e a Polónia, tendo o incidente ocorrido a 70 milhas náuticas (129 quilómetros) da base.

O navio americano, capaz de operar em ambiente de guerra radioativa, química e bacteriológica, tentou estabelecer contacto com os russos, que permaneceram em silêncio. O incidente ocorreu num momento de relações tensas entre a Rússia e a NATO na sequência da guerra no Leste da Ucrânia e de um comportamento de Moscovo considerado agressivo, nomeadamente pelos países do Báltico e Polónia.

Num total foram efetuadas 12 passagens rasantes pelos aviões russos, somando-se no segundo dia a presença de um Kamov-27, que passou sete vezes junto do destroyer americano, fazendo múltiplas fotografias. O incidente é o mais recente de uma longa lista de escalada de tensões remanescente da Guerra Fria, com a Rússia a revelar uma presença mais assertiva nas regiões dos mares do Norte e do Báltico, no mar Negro e no Ártico, assim como ao longo do Atlântico. Um desses primeiros incidentes envolveu igualmente o Donald Cook e sucedeu em abril de 2014, pouco depois de o navio ter chegado à base de Rota, no Sul de Espanha, no quadro do sistema de defesa antimísseis balísticos. O navio vogou então para o mar Negro pouco depois da anexação da Crimeia pela Rússia e antes da intensificação dos combates no Leste da Ucrânia. Então, o Donald Cook foi sobrevoado por um avião de combate russo.

Entre muitos outros casos sucedidos nos últimos dois anos, no final de outubro de 2014, em duas circunstâncias distintas no espaço de poucos dias, F-16 portugueses intercetaram aviões de combate russos sobre o Atlântico, no espaço aéreo sob responsabilidade nacional. Num dos casos, numa área adjacente ao espaço utilizado pelos voos comerciais na aproximação a Lisboa. Ainda envolvendo F-16 portugueses, a 22 de outubro do mesmo ano, e aparelhos dinamarqueses, estes intercetaram um Il-20 que entrara no espaço aéreo estónio, forçando-o a retirar. Antes, voara durante quatro horas ao longo de espaço aéreo sob a jurisdição de países da NATO.

Em todos os casos, os aviões russos não transportavam qualquer tipo de armamento, condição indispensável para não serem, por sua vez, atacados. Os meios de vigilância eletrónica permitem detetar qual o tipo de armamento a bordo de uma aeronave, o que originaria uma resposta automática.

Num plano distinto, a Suécia desencadeou uma caça a um submarino, alegadamente russo, entre 17 e 27 de outubro de 2014 que estaria a atuar nas suas águas territoriais. Moscovo tentou ridicularizar as acusações de Estocolmo. No total, em 2014, há registo de 39 incidentes, a maioria protagonizados por aeronaves no Báltico e Norte da Europa.

O incidente, que segue um padrão idêntico aos sucedidos no período da Guerra Fria, levou a Casa Branca, através do porta-voz Josh Earnest, a lembrar a existência de um acordo - de 1972 - a proibir "a simulação de ataques contra aeronaves e navios ou a realização de manobras acrobáticas", lê-se no documento assinado por representantes da União Soviética e dos EUA.

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