Casal irlandês em lua-de-mel apanhado nos fogos da Grécia. Ele morreu

Amigos de O'Callaghan-Westropp acreditam que o irlandês terá morrido a tentar salvar pessoas. Morte já foi oficialmente confirmada.

Brian O'Callaghan-Westropp e Zoe Holohan casaram-se uma semana antes de voarem até à Grécia, onde tinham planeado passar a lua-de-mel num resort situado na aldeia costeira de Mati, onde várias pessoas morreram quando tentavam fugir das chamas. No caos que se gerou com os incêndios, o casal acabou por se separar. Ele não sobreviveu.

Os irlandeses tinham-se casado na quinta-feira passada e voado para a Grécia no sábado, segundo o IrishTimes. Na segunda-feira, foram apanhados pelos incêndios devastadores. Pelo menos 26 pessoas morreram em Mati, a 30 quilómetros de Atenas.

Amigos de O'Callaghan-Westropp acreditam que o homem terá morrido a tentar salvar pessoas. Ele era "um elemento essencial e fundamental" no grupo Blood Bikes East, uma equipa de motociclistas que entregam bens médicos de emergência, como sangue e órgãos para transplantes, sete dias por semana.

Franco de Bonis disse que todos os que o conheciam estavam "realmente chocados" com a morte, mas que "até certo ponto não estavam surpreendidos" uma vez que o recém-casado era alguém que "pensava primeiro nos outros".

Ainda antes da confirmação de que Brian O'Callaghan-Westropp era a vítima mortal irlandesa, Bonis disse à RTÉ Radio: "Estamos realmente esperançosos de que ele seja uma das pessoas feridas e sem documentos." No entanto, os amigos já suspeitavam de que ele poderia ter morrido ao tentar ajudar os que fugiam das chamas,

"Era o tipo de pessoa que garantiria que Zoe estava a salvo e depois voltaria para ajudar os outros. Era um altruísta", disse Franco de Bonis .

A morte de um cidadão irlandês foi confirmada por Orla O'Hanrahan, a embaixadora irlandesa na Grécia, em entrevista ao canal RTÉ. "Os nossos corações estão com a família neste momento", disse a embaixadora, citada pela BBC.

As famílias dos recém-casados disseram que estavam "profundamente entristecidas" com a morte de Brian O'Callaghan-Westropp e pediram privacidade, acrescentando que Zoe Holohan, que sobreviveu, se encontra "em recuperação".

Mais de 70 pessoas morreram nos incêndios que devastaram várias aldeias gregas e resorts de férias. O ministro das Relações Exteriores da Irlanda, Simon Coveney, confirmou que um cidadão irlandês tinha sido hospitalizado com queimaduras.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, declarou três dias de luto.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.