Capitão da seleção de críquete e agora à frente do Paquistão

No passado, Imran Khan tinha fama de playboy e ficou famoso o casamento com Jemima Goldsmith, filha de um magnata judeu britânico. Reconvertido em muçulmano piedoso e em campeão anticorrupção é um fenómeno político.

Antigo capitão da equipa nacional de críquete, Imran Khan é o mais que provável novo primeiro-ministro do Paquistão. Aos 65 anos, o jogador educado em Oxford e com fama de playboy, conseguiu convencer os paquistaneses de que merece confiança o discurso a misturar os valores islâmicos, o ataque à corrupção e a defesa da democracia.

O seu Movimento Paquistanês para a Justiça (PTI nas siglas em urdu) não obteve a maioria absoluta dos deputados, mas deverá conseguir aliados suficientes entre os pequenos partidos para poder governar. Foi um triunfo histórico, pois o PTI teve de derrotar a Liga Muçulmana (PML-N) e o Partido do Povo Paquistanês (PPP), que alternavam há décadas no poder.

Khan chega a primeiro-ministro 26 anos depois do título mundial de críquete e 22 anos após ter fundado o PTI. Já era deputado, mas o resultado agora obtido era impensável há pouco tempo; e para o conseguir teve de derrotar duas dinastias políticas, a dos Sharif, com o PML-N a candidatar Shahbaz por impossibilidade do irmão Nawaz, ex-primeiro-ministro suspeito de corrupção, e a dos Bhutto, com o PPP a apresentar Bilawal, filho da primeira-ministra assassinada Benazir e de Asif Zardari, que viúvo foi presidente.

Não é um país qualquer este que Khan vai liderar: com 212 milhões de habitantes é o quinto mais populoso do mundo; tem também o quinto maior arsenal nuclear, a chamada bomba islâmica, pois é o único de maioria muçulmana com essa arma.

Bomba tem também a irmã-inimiga Índia, da qual o Paquistão se separou em 1947, aquando do fim da colonização britânica. Sob a liderança de Mohammed Ali Jinnah, nasceu assim uma pátria para os muçulmanos da Ásia do Sul, daí o urdu, a língua falada na corte dos imperadores mongóis, ser o idioma oficial. Jinnah morreu pouco depois e não assistiu a algumas das tragédias do país: a eterna disputa sobre Caxemira com a Índia, a perda do Paquistão Oriental que hoje é o Bangladesh, a intromissão dos militares na vida política.

Há acusações de manipulação eleitoral na ida às urnas de quarta-feira, com alegações de que os generais terão favorecido Khan. É uma fama que não larga o Paquistão esta de ser governado na sombra pelos chefes militares, fama pior ainda quando a Índia sempre conseguiu que os seus generais ficassem nos quartéis. Contudo, o verdadeiro desafio para Khan é mesmo relançar o Paquistão, país que perde para a Índia em várias comparações, nomeadamente em PIB per capita ou no índice de desenvolvimento humano, ganhando só no Gini Índex, pois é menos desigual.

As riquezas naturais são enormes, assim como o engenho do povo. Resolva-se o contencioso com a Índia e acabe-se com a radicalização islâmica. Talvez assim o crescimento acelere mais e o Paquistão possa ser mais do que a 41.ª economia.

Khan, que depois do êxito no críquete obteve notoriedade internacional pelo casamento com Jemima Goldsmith, filha de um magnata judeu britânico, tem a favor, dirão alguns, o ser pastune. Étnia valente capaz de dar a maioria dos talibãs mas também Malala Yousafzai, a campeã da educação que se tornou Nobel. Veremos.

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