Cada vez mais fortes, talibãs condenam atentado em Cabul

Camião armadilhado explodiu na zona das embaixadas e fez pelo menos 90 mortos e mais de 400 feridos, a maioria civis

Azizullah não conseguia saber notícias do filho de 22 anos. "Procurei em todos os hospitais. Não está em lado algum", desabafou ao The New York Times, momentos antes de o telefone tocar. Aparentemente a chamada vinha do interior do Wazir Akbar Khan, o principal hospital público de Cabul. "Pode revistar essa pessoa com o corpo decepado e tentar encontrar os documentos? É possível que seja ele", pediu ao interlocutor o homem na casa dos 60 anos. Talvez Azizullah tenha encontrado o filho. Talvez ele faça parte da lista das pelo menos 90 vítimas mortais do atentado de ontem no Afeganistão.

A manhã foi de terror em Cabul. Uma bomba, escondida num camião de limpeza de fossas séticas, explodiu às 08:20 locais (05:20 em Lisboa). Segundo a AFP terão sido utilizados mais de 1500 quilos de explosivos. Tudo indica que a maior parte das vítimas são civis, que estariam a caminho da escola ou do emprego. A explosão deu-se durante a hora de ponta, numa área muito movimentada, junto a várias embaixadas e ao palácio presidencial.

"Tratou-se de um veículo armadilhado que explodiu perto da embaixada alemã, mas na zona há outros edifícios importantes. É difícil dizer qual era o alvo", afirmou Basir Mujahid, um porta-voz da polícia da cidade. De acordo com Sigmar Gabriel, ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, um dos guardas da embaixada germânica morreu na explosão e há outros feridos entre os trabalhadores. "Estes ataques não mudam a nossa determinação em continuar a apoiar o governo afegão nos esforços de estabilização do país", acrescentou Gabriel. Pelo menos as embaixadas francesa, turca, chinesa, indiana, japonesa e búlgara também sofreram danos materiais. Entre os mortos encontra-se Mohammed Nazir, um motorista afegão que trabalhava para a BBC. Quatro jornalistas da estação britânica também ficaram feridos mas não correm perigo de vida.

"Os terroristas, mesmo no mês sagrado do Ramadão, o mês da bondade e da oração, não param de matar inocentes", disse o presidente afegão Ashraf Ghani num comunicado. O líder classificou ainda o ataque como um crime contra a humanidade.

"Primeiro parecia um tremor de terra e depois veio tudo abaixo, as janelas, o telhado. Ficámos sem eletricidade", relata, citado pelo The Guardian, Elias Naser, porteiro nos escritório do Azizi Bank, localizado na vizinhança. "A explosão foi tão violenta que cavou uma cratera com uma profundidade de quatro metros", sublinhou Hassan Shah Frogh, chefe da polícia de Cabul.

O ataque ainda não foi reivindicado, mas os talibãs já negaram qualquer envolvimento no atentado e sublinharam que condenam todos os ataques que não tenham alvos precisos e que matam civis. Este movimento fundamentalista e radical, que perdeu influência depois da invasão norte-americana em 2001, tem, nos últimos anos, vindo a conquistar terreno e estima-se que neste momento controle já cerca de 40% do território.

Rita Katz, analista e cofundadora do SITE - um instituto com sede em Washington que se dedica ao estudo de redes e grupos terroristas -, escreveu ontem no Twitter que é provável que o Estado Islâmico venha a reclamar o atentado. "O ataque parece semelhante a outro reclamado pelo ISIS no início deste mês, perto da embaixada norte-americana em Cabul", acrescenta a especialista. Apesar de em abril os EUA terem atacado infraestruturas do grupo terrorista no Afeganistão com o lançamento da MOAB, a mais poderosa bomba não nuclear, este país "continua a ser o território, fora do Iraque e da Síria onde o Estado Islâmico se encontra mais ativo", sublinha Katz. Apenas em maio, o Daesh reclamou a autoria de 15 atentados no Afeganistão.

O ataque acontece num momento em que os EUA ponderam o envio de mais tropas para o Afeganistão, numa tentativa de travar as perdas territoriais para os talibãs. A Casa Branca, através de um porta-voz, condenou o "ataque atroz", sublinhando ainda o facto de ter acontecido durante o Ramadão.

É previsível que o atentado de ontem aumente ainda mais a pressão que existe sobre o governo de Ghani, a braços com um descontentamento cada vez maior pela incapacidade em garantir a segurança no país. O atual presidente está no poder desde 2014, depois de ter vencido a segunda-volta das eleições com 56,4% dos votos, concorrendo como independente.

"Condeno este terrível ataque. Os meus pensamentos estão com todos aqueles que foram afetados. A NATO continua unida com o Afeganistão no combate contra o terrorismo", escreveu no Twitter o secretário-geral da organização militar, Jens Stoltenberg.

A Alemanha cancelou um voo para Cabul que estava previsto para quarta-feira e que transportaria para o Afeganistão migrantes cujo pedido de asilo foi rejeitado pelas autoridades germânicas.

"O Abdullah tem duas crianças, uma mulher e uma mãe já idosa. O que lhes vou dizer?", perguntava Azizullah ao repórter do The New York Times, ainda à procura do filho com apenas 22 anos.

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