Cabrilho. Herói dos portugueses e da América multicultural

Índios kumeyaay, mexicanos e espanhóis juntos numa festa portuguesa que contraria aquilo que Donald Trump anda a dizer.

Há bandeiras de Portugal e há portugueses a discursar. E entre a assistência estão oficiais da marinha americana, até porque a festa inclui uma sessão de gala na base naval de Point Loma, em San Diego. "Há 53 anos que fazemos este Cabrillo Festival. É um momento feliz para a comunidade", diz Idalmiro da Rosa, cujo pai era um faroleiro do Pico que emigrou para a Califórnia para se dedicar à pesca do atum e trouxe a mulher e o filho adolescente. Hoje com 62 anos, este engenheiro da Câmara de San Diego é uma figura de destaque da comunidade portuguesa e um entusiasta da celebração do navegador.

O orador principal junto à estátua de Cabrilho é este ano Vasco Rato, presidente da FLAD. É visita habitual de San Diego e conhecedor da importância que tem para a comunidade ter sido um português, ainda que ao serviço de Espanha e à frente de uma tripulação com muitas nacionalidades, a descobrir a Califórnia, que é como quem diz a ser o primeiro europeu a pisá-la pois os índios já cá estavam. "Vamos deixar um pouco o Cabrilho histórico e celebrar o espírito de Cabrilho e a sua importância para a nossa época. E esse espírito é o da convivência multicultural", diz Vasco Rato, num discurso em inglês em que usa a palavra "convivência" em português. Os aplausos vêm de gente de todas as idades, pois a comunidade em San Diego não só é numerosa como fiel à cultura portuguesa. E próspera, basta ver o tamanho do Salão Português na cidade, com uma divisão principal capaz de acomodar 400 pessoas. Na comunidade predominam os açorianos, mas há madeirenses e alguns continentais.

Realizado em Point Loma, península que separa a baía de San Diego do Pacífico, o Cabrillo Festival faz-se desde 1963 e nos últimos anos tem o apoio da FLAD. Mas a estátua foi oferecida pelo governo português em 1939. E se o festival é de Cabrillo (com dois eles), o nome do navegador não era Juan Rodríguez mas sim João Rodrigues Cabrilho, transmontano que foi camarada de armas de Hernán Cortés, conquistador do México

Na comunidade há alguma preocupação por estes dias com a tese de uma canadiana que quer fazer do navegador um andaluz, mas continua sólida a versão de Herrera y Tordesillas, cronista do século XVII que conta a conquista das Américas e descreve Cabrilho como português. "Porque haveria um espanhol dessa época escrever que ele era português se não fosse?", nota Idalmiro da Rosa. E a apoiar a tese tradicional está o facto de haver muitos portugueses que navegaram ao serviço da coroa espanhola, como Fernão de Magalhães.

Índios juntam-se à festa

Durou dois dias o festival, sexta e ontem. De São Francisco veio o cônsul Nuno Mathias e de Washington o adido militar, o capitão de mar e guerra José Galrito, representando a Marinha. Houve a habitual reconstituição histórica do desembarque de 28 de setembro de 1542 em Point Loma. Atores trajados a rigor, como Donald Valadão, que faz de Cabrilho "há 22 anos". De certeza que se sentem tão abafados como Cabrilho e os seus homens na época, pois o clima de San Diego é de praia todos os dias ou não fosse a cidade mesmo fronteiriça do México.

Há representantes das comunidades espanhola e mexicana no festival. E também descendentes dos índios kumeyaay que Cabrilho encontrou aqui há quase 500 anos. "Tornou-se uma festa que serve para relembrar, nesta época marcada por Donald Trump, que os Estados Unidos foram feitos por muitas nações", afirma José Duarte Garcia, que já foi presidente do festival. "Trata-se de celebrar a herança, a cultura, a comunidade e a sinergia das nações", acrescenta Patty Camacho, a presidente neste ano do Cabrillo Festival, que assinala que o candidato presidencial republicano "anda a dizer o contrário daquilo que são os Estados Unidos. Talvez nem se aperceba".

O discurso anti-hispânicos de Trump não ameaça os portugueses. "Aqui em San Diego ninguém nos confunde", salienta José Duarte Garcia. Mas não deixa de ser criticado. "Os mexicanos que conheço são gente trabalhadora. E queria ver como se faziam as colheitas na Califórnia se não fossem os que chegam do México", nota Idalmiro da Rosa.

Califórnia é muito antiga

Há portugueses que votam republicano (os três atuais congressistas lusodescendentes são da Califórnia e dois deles até republicanos). E há aqueles como José Duarte Garcia que votam "sempre no melhor candidato, seja democrata ou republicano. Mas neste ano nem pensar no Partido Republicano com estas ideias do Trump". A maioria dos portugueses na América parece, porém, tender para os democratas.

Na Califórnia a vitória da democrata Hillary Clinton a 8 de novembro é dada como certa. Num estado onde os hispânicos são 40% e abundam as minorias é natural que o seu discurso de inclusão tenha mais sucesso. A chegada de Cabrilho pode ser longínqua, mas a fundação de São Francisco em 1776, ano da declaração de independência assinada em Filadélfia contra o rei inglês, mostra como os atuais Estados Unidos têm legados além do anglo-saxónico. Em San Diego, o bairro conhecido como Old Town reclama que ali nasceu a Califórnia, muito antes da conquista americana ao México em 1846.

Base dos porta-aviões do Pacífico, San Diego tem bastante a agradecer aos militares. E por isso não admira a estátua gigante, no cais, do casal que deu o famoso beijo no desfile de agosto de 1945 que marcou a vitória na Segunda Guerra Mundial. Para a comunidade portuguesa foi um bónus: o marinheiro fotografado com a enfermeira em Nova Iorque é George Mendonsa, lusodescendente de Rhode Island, na costa atlântica.

Mas emblemático é o monumento às três comunidades que fizeram de San Diego a capital de pesca do atum no século XX. A maior parte dos nomes de desaparecidos no mar lá inscritos são portugueses, como Madruga e Medina, mas as figuras de cana na mão são um português, um italiano e um japonês. Na galeria de fotos no Salão de Portugal vi um antigo presidente de nome italiano e uma ex-presidente de apelido japonês. "Ele era casado com uma portuguesa, ela casou com um japonês", explica-me Idalmiro da Rosa. Assim se constrói a América, mesmo que Trump finja que não sabe.

O DN viajou a convite da FLAD

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