Brexit: novo contrarrelógio para quebrar impasse

Com as negociações do acordo de retirada definitivamente fechadas, Londres e Bruxelas arrancam hoje um novo contrarrelógio de discussões para quebrar o impasse no Brexit.

A sete semanas da data em que se quebrará o laço entre o Reino Unido e a União Europeia, o negociador principal dos 27, Michel Barnier, e o novo negociador britânico, Stephen Barclay, encontram-se na tarde desta segunda-feira em Estrasburgo para iniciarem uma nova etapa, com novos diálogos.

De um lado, os 27 que aceitam clarificar dúvidas dos deputados britânicos sobre a solução de último recurso para evitar uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

Do outro, o negociador britânico deverá insistir que é preciso mais dos que uma clarificação, pedindo que haja um compromisso legalmente vinculativo sobre o também chamado Backstop para a Irlanda, para facilitar uma nova tentativa de aprovação no Parlamento Britânico do acordo que já por duas vezes foi rejeitado.

Falta saber se o negociador europeu, Michel Barnier, também aprova o repto já lançado pelo coordenador do Brexit no Parlamento Europeu. Guy Verhofstadt saudou as medias arquitetadas pelo líder da oposição Jeremy Corbyn, numa carta enviada à primeira-ministra, Theresa May.

"É importante agora que isso conduza a uma posição no Reino Unido que tenha a mais ampla maioria possível, para que possamos concluir esta negociação", afirmou o coordenador do Parlamento Europeu para o Brexit, insistindo que todos os esforços devem ser feitos para alcançar um acordo, como tinha vincado numa entrevista ao DN.

Solução Corbyn

Em troca do voto favorável dos 282 deputados trabalhistas, Corbyn propõe medidas para executar o Brexit, deixando o Reino Unido ligado a quase tudo na União Europeia.

Entre as propostas, o líder trabalhista pede "uma ampla união aduaneira com a União Europeia, um abrangente acordo comercial e uma relação dinâmica sobre os direitos laborais e direitos dirigidos aos consumidores".

Fontes ouvidas em Bruxelas admitem que as discussões deverão arrastar-se durante as próximas semanas. E um eventual texto de clarificação ao acordo só será apresentado numa data muito próxima do final do prazo para a saída do Reino Unido da União Europeia - a 29 de março.

As trevas

Na semana passada, o tom dos discursos sobre o Brexit aqueceu a um ponto que levou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, a afirmar haver um "lugar especial no inferno" reservado para os defensores da saída do Reino Unido da União Europeia.

A declaração de Tusk caiu mal em Londres e foi classificada como "pouco diplomática", tendo mesmo provocado alguns amargos de boca na própria primeira-ministra.

Quando regressou a Bruxelas, na passada quinta-feira, para vários encontros com os líderes das instituições europeias, Theresa May não deixou o assunto em branco. "Abordei com o presidente Tusk a linguagem que ele usou, que não é útil e causou um desânimo geral no Reino Unido", disse a chefe do Governo de Londres, referindo-se à polémica afirmação do dia anterior.

"Tenho vindo a questionar-me como é que será esse lugar especial no inferno para aqueles que promoveram o Brexit sem um rascunho para o executar em segurança", tinha ironizado Tusk, a quem Theresa May, - além da advertência sobre o tom do discurso - também pediu mais flexibilidade para o acordo de retirada.

"O que eu vim demonstrar foi a nossa posição clara de que temos de garantir alterações juridicamente vinculativas, para lidarmos com as preocupações que o Parlamento tem relativamente ao Backstop", vincou.

Mas, a resposta a este pedido estava dada, através do porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, logo após a reunião de May com o líder do executivo comunitário, que tinha marcado o arranque dos vários encontros ao longo do dia.

"O presidente [da Comissão Europeia, Jean-Claude] Juncker sublinhou que a UE27 não reabrirá o Acordo de Retirada, que representa um compromisso cuidadosamente equilibrado entre a União Europeia e o Reino Unido, em que ambas as partes fizeram concessões significativas para chegar a um acordo", disse o porta-voz.

Preocupações

Posteriormente, já no Parlamento Europeu, Antonio Tajani dramatizou o discurso, manifestando "muita preocupação", pois o pior pode mesmo estar para vir, muito em breve.

"Estamos muito preocupados. Estamos a semanas de uma catástrofe económica e humana. Esta é a realidade de um brexit sem acordo. Será uma opção muito perigosa [termos] um Brexit sem acordo", alertou o presidente do Parlamento Europeu.

Theresa May regressou a Londres com a indicação que a União Europeia está disponível para clarificar os termos do Backstop para a Irlanda, no âmbito da declaração política sobre a relação futura. As discussões começam estya segunda-feira em Estrasburgo.

"As conversações vão agora começar, para encontrarmos uma forma para superar isto e respondermos às preocupações dos deputados para conseguirmos uma maioria no Parlamento", disse a primeira-ministra.