Brexit não é irrevogável, mas o beijo do adeus deverá chegar

Especialistas ouvidos pelo DN consideram que as possibilidades de reverter o adeus do Reino Unido à Europa são reduzidas. Seria necessário novo referendo e novas eleições

Ilsa está quase a embarcar no avião, prestes a dizer-lhe adeus. "E nós?", pergunta. Rick, interpretado por Humphrey Bogart no filme Casablanca, dá-lhe aquela que se tornou uma das respostas mais famosas do cinema: "Nós teremos sempre Paris." Sim, o mais provável é que a Europa tenha sempre Paris. E Londres?

Depois do referendo e da ativação do artigo 50.º será possível que a União Europeia continue a ter a capital do Reino Unido ou o adeus é inevitável? A 22 de junho, Donald Tusk disse que ainda acredita que os europeus terão sempre Londres. "You may say I"m a dreamer, but I"m not the only one (Podem dizer que sou um sonhador, mas não sou o único)", afirmou o presidente do Conselho Europeu, usando os versos de Imagine, de John Lennon.

Talvez o polaco esteja a ser demasiado onírico. Para os especialistas da London School of Economics (LSE) consultados pelo DN reverter o brexit e fazer que Londres continue dentro das fronteiras da UE é um desejo difícil de ser concretizado. "As chances são mínimas e as circunstâncias que poderiam levar o Reino Unido a permanecer na União Europeia são muito pouco desejáveis mesmo para aqueles que gostariam que o brexit não acontecesse. Seria necessária uma catástrofe económica que levasse as pessoas a mudar de ideias", resume Waltraud Schelkle, professora de Economia Política na LSE.

O Politico publicou um artigo elencando nove caminhos para o Reino Unido poder continuar na UE. Mas, para uma inversão de marcha dessa magnitude, os britânicos teriam de voltar a ser chamados às urnas, para um novo referendo ou para escolher um novo governo que fosse eleito com o mandato de tentar fazer que a Europa continuasse a ter Londres. E Edimburgo. E Belfast. E Cardiff.

"Era preciso que acontecesse uma revolução na política britânica à escala daquela que Emmanuel Macron conseguiu em França, algo sem precedentes. Mas não há sinais nesse sentido", defende Iain Begg, investigador da LSE e especialista em integração europeia.

Apesar das diferenças de pensamento político entre trabalhistas e conservadores, os dois maiores partidos britânicos querem dizer adeus a Bruxelas. Jeremy Corbyn, líder do Labour, foi sempre um reconhecido eurocético ao longo da sua carreira política. Begg sublinha isso mesmo: "O Partido Trabalhista tem vindo mesmo a endurecer as suas posições, o que reflete a velha oposição de Corbyn e dos seus aliados à UE." Ainda assim, Sadiq Khan, trabalhista e presidente da câmara de Londres, no final de julho abriu a porta a que o Labour ainda possa travar o brexit. Mas, para isso, sublinha o autarca, seria necessário que houvesse eleições e que o partido fosse muito claro no programa eleitoral.

Para Tim Oliver, especialista nas relações entre o Reino Unido e a UE e professor convidado na LSE, só há três hipóteses para travar o divórcio: "Um novo referendo no qual os britânicos mudem a decisão, um novo governo eleito com um mandato para reverter o brexit ou uma esmagadora votação no parlamento nesse sentido." Mas, para que qualquer uma destas escapatórias possa concretizar-se, Oliver entende que seria necessário um tremendo choque político ou económico antes de março de 2019, o momento em que expira o prazo de dois anos depois de o Reino Unido ter ativado o artigo 50 do Tratado de Lisboa. Ainda assim, sublinha o mesmo especialista, para voltar atrás com o pedido de divórcio seria necessário que os outros 27 estivessem de acordo. "Este facto parece que é esquecido por muitas pessoas. Esse consentimento está longe de estar garantido. Garantido é que uma situação dessas iria exasperar - e muito - o resto da UE", refere.

E se, no final das negociações, a primeira-ministra Theresa May regressar de Bruxelas com um acordo de saída muito penalizador para o Reino Unido? "Muito me surpreenderia se ela ainda estivesse no cargo em 2019", sublinha Begg. "Mesmo assim, não consigo antever que tipo de processo político poderia dar lugar a um novo referendo. É algo que não está previsto na Constituição. Seria necessário que houvesse uma proposta nesse sentido e que ela conseguisse uma maioria no Parlamento", concretiza o investigador.

Apesar de tudo, para Oliver, Londres terá sempre Bruxelas. De alguma forma o Reino Unido continuará ligado à UE, eventualmente através do Espaço Económico Europeu: "Sendo a principal organização europeia em termos políticos, económicos e sociais, a UE é um pouco como o Hotel California da canção dos Eagles: podes fazer o check-out em qualquer momento, mas não podes nunca sair."

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