Brexit e a crise no governo britânico. "Tudo previsível, mas preocupante"

Os eurodeputados portugueses não se mostram surpreendidos. A crise no governo britânico por causa da proposta de acordo do Brexit era "previsível", dizem. E admitem que se abre uma "caixa de Pandora" se Theresa May cair e tudo voltar à estaca zero.

"Tudo isto era previsível, o que não quer dizer que não seja preocupante". É assim que Paulo Rangel olha para a crise no governo britânico desencadeada pela proposta de acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia. O eurodeputado sintetizou o que a maioria dos deputados portugueses no Parlamento Europeu pensam sobre o facto de Theresa May, primeira-ministra britânica, ter ficado entre a espada e a parede com a demissão de dois ministros e dois secretários de Estado e previsível oposição do parlamento britânico ao que chamam de "soft Brexit".

Paulo Rangel, que também é um dos vice-presidentes do Partido Popular Europeu, justifica o tempo que May demorou a apresentar a proposta de acordo, que já estava delineado desde outubro. "A primeira-ministra quis ganhar apoios dentro do Partido Conservador e do grupo parlamentar. Como não era possível conseguir mais nada, era melhor avançar e dizer aos britânicos que conseguiu um acordo moderado com a UE" - o "soft Brexit".

É por isso que nesta crise, Rangel dá maior destaque ao bater de porta do ministro negociador do Brexit, Dominic Raab, que tinha sucedido no cargo ao eurocético David Davis, que já se tinha demitido em julho contra a chamada proposta negociada em Chequers. "Raab era um ministro peso-pesado, que dava maior credibilidade à solução encontrada se tivesse ficado", sublinha.

O eurodeputado centrista Nuno Melo reconhece, dadas as divisões no próprio Partido Conservador desde o início do processo, que dificilmente um acordo agradaria a todos os membros do governo e enquadra as demissões neste plano. "Theresa May aceitou o possível para salvaguardar as expectativas dos britânicos, com o menor prejuízo, mas o acordo fere o orgulho dos que defendem um hard Brexit e não dá acolhimento aos que defendem a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia".

Carlos Zorrinho, deputado do PS no Parlamento Europeu, sublinha que enquanto a UE manteve sempre "unidade negocial" neste processo, e foi definindo as linhas-vermelhas - entre as quais a liberdade de circulação e de direitos das comunidades imigrantes, bem como a questão da fronteira com a Irlanda - "o Reino Unido esteve sempre bastante polarizado". E mesmo entre os que queriam a saída da UE, no Partido Conservador, a divisão era grande entre os defensores do "soft Brexit" e o "hard-Brexit".

"Estamos numa fase imprevisível e que pode ter consequências gravosas. Poderemos chegar a 29 de março sem um acordo e isso vai ter consequências dramáticas"

Os eurodeputados britânicos, conta Carlos Zorrinho, estavam nesta quinta-feira "aos magotes" a assistir ao vivo ao debate no Parlamento britânico sobre a proposta de acordo apresentada por Theresa May. "Eles próprios admitem que não sabem o desfecho de tudo isto".

E é mesmo imprevisível porque, assegura Paulo Rangel, tudo aponta para que a proposta de acordo não seja acolhida pelo Parlamento britânico. "Só se grande parte do Partido Trabalhista, 50 dos seus deputados, votassem ao lado de May", diz o eurodeputado social-democrata, mas admite que essa possibilidade é muito remota. E explica: "O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, que também é a favor do Brexit por razões ideológicas, não deve dar esse apoio".

Eleições e referendo podem não clarificar

Se o governo de Theresa May cair, o que segundo Marisa Matias é o caldo que se está a formar no Reino Unido, as eleições permitirão dar o salto para uma clarificação? "As eleições não virão clarificar nada!", garante Paulo Rangel, precisamente porque nenhuma dos grandes partidos, o Conservador e o Trabalhista, farão campanha contra o Brexit.

E poderão abrir a porta a um referendo? "Até podem, mas um referendo também pode não ser clarificador, tudo depende da pergunta que for feita", sublinha Rangel. "Estamos numa fase imprevisível e que pode ter consequências gravosas. Poderemos chegar a 29 de março sem um acordo e isso vai ter consequências dramáticas". Marisa Matias, que será a cabeça de lista do BE ao Parlamento Europeu, admite também que neste cenário, de tudo voltar à estaca zero, se está a abrir uma "caixa de Pandora".

O eurodeputado comunista João Ferreira insiste que já era previsível toda esta instabilidade, já que todos sabiam as contradições que percorriam o Partido Conservador britânico, que reflete "as contradições do grande capital britânico". Mas na sua opinião, o que levou ao Brexit e à fragilização da primeira-ministra Theresa May é a "situação económica e social difícil" que resulta das políticas do seu partido.

"Contraditoriamente, o processo de saída do Reino Unido da UE comporta a possibilidade de implementação de um conjunto de políticas que permitirão melhorar a situação económica e social daquele país".

Lembra as propostas de industrialização de Corbyn e de contratação pública que chocam com a legislação da União Europeia. Nesta visão muito crítica do PCP sobre as políticas da UE, João Ferreira, frisa que "todo o seu acervo legislativo constitui um obstáculo a políticas alternativas de progresso social".

E no meio da "turbulência" diz que é preciso assegurar o "respeito pela decisão soberana do povo britânico" e "velar pelos interesses da comunidade portuguesa".

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