Brasileira diz ter sido agredida à porta de bar em Lisboa

O caso foi denunciado no Facebook e está a ser noticiado pelo jornal O Globo. Responsável do bar nega ao DN a versão dos factos e diz que ela estava "transtornada".

"Sim, aconteceu comigo. Sim eu estou bem. Jamais se calem. Juntas somos mais fortes!", escreveu no Facebook Sophia Velho, uma brasileira que está a estudar Design Global no IADE, em Lisboa. A mensagem inclui o link do artigo escrito pelo jornal O Globo sobre a agressão que diz ter sido alvo à porta de um bar no Bairro Alto. Na foto surge a sangrar do rosto.

Segundo O Globo, a alegada agressão ocorreu no dia 28, em Lisboa. Mas a jovem só falou do episódio uma semana depois, publicando um texto e fotos num grupo fechado no Facebook, intitulado "Portugal que Ninguém Conta", que tem mais de 40 mil membros. O DN não conseguiu ter acesso ao grupo.

Há contudo quem tenha feito uma cópia do depoimento e partilhado na página do bar Associação Loucos e Sonhadores, com as declarações a corresponder ao que Sophia contou depois ao jornal O Globo.

O caso terá começado, de acordo com o explicado no jornal, quando Sophia levou uma amiga que está a viajar pela Europa a esse bar, à porta do qual ocorreu o incidente. Aí, conta, ouviu uma portuguesa a criticar as brasileiras, dizendo que elas são "vadias" e que vão a Portugal "roubar os homens".

No texto, Sophia diz: "Muitos irão me julgar porque não deveria andar na rua apenas acompanhada de uma amiga, porque de certos estava vestido roupas impróprias (o que de longe era verdade), porque sou brasileira ou porque simplesmente sou melhor". A jovem conta ainda que a caminho do bar foi assediada diversas vezes na rua, havendo até quem tenha puxado a sua mão e falado "inimagináveis coisas, mas enfim ignoramos".

O problema terá começado dentro do bar, quando a amiga foi à casa de banho e teve que pedir a uma rapariga que estava com quatro rapazes que desviasse a cadeira o que ela fez "com mau gosto", seguido de comentários "a respeito do corpo dela e sobre brasileiros serem seres humanos nojentos e repugnantes".

Contou Sophia ao jornal O Globo: "Eu então intervi (sic): 'Como é que é? Eu sou brasileira!' Ela disse que não imaginou que eu fosse brasileira, pensou que fosse inglesa. Continuou rindo e falando mal dos brasileiros, fazendo piadas sobre como as brasileiras querem roubar os homens das portuguesas, coisas horríveis".

No texto escreveu: "Então levantei-me e fui até o dono do bar que é o senhor da foto na porta e reclamei, ela a seguir veio atrás empurrando-me e chamando-me de vagabunda, puta e coisas do género, quando vi a minha amiga voltou da casa de banho e tentei sair de onde estava mas a gaja estava parada na minha frente e não me deixava sair e não a empurrei, peguei minhas coisas e fomos embora."

Em seguida, Sophia contou ao Globo que a portuguesa foi atrás dela e lhe desferiu um soco, fazendo com que caísse. "Outros garotos me seguraram, eram três ou quatro que estavam com ela. Eu disse: 'Me larga!', mas eles começaram a bater em mim e caí de novo. Depois vi que estavam levando minha amiga de volta pro bar. Entrei de novo no bar, mas um garçom me jogou para fora, bati com o rosto numa pedra de paralelepípedo e ficou roxo", pode ler-se.

As agressões só terão parado porque alguns ingleses começaram a gritar. A jovem contou ao jornal brasileiro que a polícia foi chamada, mas que não recebeu qualquer assistência. "Sim a policia foi chamada, eles chegaram lá CUMPRIMENTARAM o dono do bar, não ouviram minha versão da história e foram embora", lê-se no texto. "Eu tentei dar queixa mas não me ouviram e nem pegaram meu depoimento", acrescenta.

"Isso nunca tinha acontecido comigo, mas já presenciei agressões contra brasileiros e muitos angolanos e brasileiros vieram me contar outros casos. Quando contei para minha mãe, ela ficou desesperada, queria eu pegasse um voo para Porto Alegre logo no dia seguinte. Mas estou a um mês de terminar a graduação, então continuei. Acho que estar prestes a voltar para o Brasil me motivou a falar sobre o que aconteceu. Levei uma semana para falar, mas foi preciso. A sensação que passa de um episódio como esse é de impunidade total", contou Sophia ao Globo.

A jovem brasileira disse ao jornal que levou dois pontos no rosto, mas foram dados por uma amiga médica, não num hospital.

A versão do bar

"Nós chamámos a polícia para tomar conta da ocorrência, porque ela estava completamente passada, agrediu um funcionário e uma cliente e nós chamámos a polícia", descreveu ao DN Vítor Campos, responsável pelo espaço Loucos e Sonhadores, na Rua da Rosa.

Vítor Campos explicou que os problemas começaram no interior do bar e que ele expulsou as duas mulheres. "Começou no bar, mas engalfinharam-se à séria fora do espaço. A experiência já me diz para chamar de imediato a polícia e foi o que fiz", contou.

"A senhora começou a dizer que nós éramos racistas e que os portugueses eram racistas e isso são coisas que eu não tolero e chamei a polícia", reiterou. "A polícia viu que a senhora estava totalmente fora dela, com atitudes muito racistas em relação aos portugueses. Uma coisa sem pés nem cabeça", acrescentou.

Em relação à foto de Sophia a sangrar, Vítor Campos diz que "a polícia chamou o INEM e que o INEM não viu nada, era um arranhão".

O DN contactou a esquadra do Bairro Alto, mas foi informado que só o comandante (que estava ausente) poderia falar do caso.

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