Bolsonaro tem alta em dia de protesto das mulheres: #EleNão

Em entrevista, ainda internado, candidato disse que não aceitará nenhum resultado "além da vitória" e que o PT só poderá ganhar "na fraude". #EleNão é o mote para as manifestações que estão a decorrer no Brasil e não só.

Depois de 23 dias hospitalizado, por causa da facada no abdómen sofrida dia 6 de setembro em Juiz de Fora, Jair Bolsonaro teve alta hoje e voou de São Paulo, onde estava aos cuidados da equipa médica do Hospital Israelita Albert Einstein, para o Rio de Janeiro, onde mora. Às 19 horas, o hospital divulgará um boletim médico sobre o candidato de extrema-direita do PSL.

A alta estava prevista para ontem mas uma leve infeção adiou o procedimento em cerca de 24 horas, por precaução. Desde que chegou ao hospital, no dia seguinte ao ataque desferido por Adélio Bispo, que continua preso e sob interrogatórios da polícia, Bolsonaro passou por duas cirurgias, uma para estancar a hemorragia e outra para corrigir um problema no intestino.

Apesar da alta, os médicos vão recomendar ao presidenciável, que segue em primeiro lugar nas sondagens, para ficar em repouso absoluto até dia 10, ou seja, até três dias depois da eleição. Falharia, assim, o último debate, marcado para a próxima quinta-feira na TV Globo. Durante a sua ausência, Bolsonaro já falhou dois outros debates televisivos. Em simultâneo, viu o seu candidato a vice-presidente, General Mourão, e o seu eventual ministro das finanças, Paulo Guedes, acumularem gafes.

O segundo disse que equacionava ressuscitar um imposto sobre transações bancárias, que desagrada à maioria do eleitorado. E o primeiro considerou terminar com o 13.º mês, além de afirmar que filhos criados apenas por mães e avós tendem a ser desajustados da sociedade.

O próprio Bolsonaro, entretanto, também teve uma declaração que causou perplexidade. Em entrevista da cama de hospital ao programa de crime Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, deu a entender que não acatará uma eventual derrota eleitoral. "Pelo que vejo nas ruas, não aceito nenhum resultado diferente da minha eleição", afirmou. "O PT só ganha na fraude", completou, noutro trecho.

Para o candidato, o sistema de urna eletrónica, usado no Brasil desde há décadas e tido por especialistas como mais eficaz do que o voto impresso, não é confiável. "Não confiamos em nada no Brasil, até concurso da Mega-Sena [semelhante ao Euromilhões] a gente desconfia, lamentavelmente não temos como auditar as eleições, não existe outra maneira de perder que não seja na fraude e também não acredito em sondagens".

Ainda assim, a última sondagem, do Instituto Datafolha, dá o candidato do PSL na frente, com 28% dos votos, mais seis do que Fernando Haddad, do PT. E Bolsonaro foi eleito sete vezes para a Câmara dos Deputado no sistema da urna eletrónica.

Jornada de protestos

A alta de Bolsonaro coincide com uma jornada de protestos contra a sua candidatura à presidência brasileira, liderada pelas mulheres brasileiras em várias cidades do país.

Em Lisboa, cerca de três centenas de pessoas estão hoje concentradas na Praça Luís de Camões, a gritar e a cantar palavras de ordem contra o candidato da extrema-direita. "Ele não", "ele nunca", "fascistas, fascistas não passarão" ou "eu não voto no candidato fascista", gritam, segundo a agência Lusa. Imagens que se repetem em cidades como Berlim ou Genebra.

Além dos cânticos, a mensagem passa também por inscrições nas camisolas, na pele e através de cartazes com mensagens como: "ele não vai nos calar", "democracia sim, fascismo não", "machismo, racismo, homofobia não". A praça está também repleta de bandeiras do Brasil, bandeiras da comunidade LGBT e balões roxos, em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em março, no Rio de Janeiro.

Em Berlim, a comunidade brasileira também saiu à rua contra Bolsonaro, repetindo a palavra de ordem #EleNão, traduzida para inglês e alemão. Marcela Dias, a viver há dois anos na capital alemã, foi das primeiras a chegar a May-Ayim-Ufer, numa das margens do rio Spree. Traz uma camisola com as cores da bandeira da comunidade LGBT, "ele não" escrito na bochecha, e lápis na mão. Vai pintando outras mulheres que fazem fila à espera de vez.

"Ele não, ele de jeito nenhum, como pode? Acho que nem é uma questão política ou de direita ou esquerda. É uma questão humanitária", confessa à agência Lusa, enquanto vai explicando o que a levou a aceitar a chamada nas redes sociais.

O evento "Mulheres unidas contra o Bolsonaro em Berlim" foi criado por Lou Trajano, de 24 anos. "Estou muito assustada, pensar no nosso Brasil a passar novamente por uma ditadura ou por tempos difíceis com alguém que não está minimamente preparado para governar o país. Dá um clima de incerteza muito grande, é assustador", desabafa a organizadora, a viver na Alemanha há cerca de dez meses.

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