Blair diz que Farage transformou política britânica num pântano

Ex-primeiro-ministro britânico critica o líder do Partido do Brexit, à frente nas sondagens, mas também não poupa o seu partido, o Labour, atualmente liderado por Jeremy Corbyn

A 11 dias das eleições europeas​​ - o Reino Unido é dos primeiros Estados membros da UE a votar logo no dia 23 - Tony Blair mostra-se perplexo com a vantagem que levam, nas sondagens, Nigel Farage e o seu Partido do Brexit.

Uma sondagem do instituto Opinium, para o Observer, revelou que o Partido do Brexit poderá ter 34% dos votos dos eleitores britânicos. Nas anteriores europeias, em 2014, não existia este partido. Mas o Ukip, que era a formação de Farage na altura, obteve 26,6% e elegeu 24 dos 73 eurodeputados a que tem direito o Reino Unido. Destes, atualmente, apenas três continuam a fazer parte do Partido da Independência Total do Reino Unido. O Ukip, aliás, surge nessa sondagem com apenas 4% das intenções de voto. Ou seja, não é o partido que faz Nigel Farage, mas sim o contrário.

Aquele estudo de opinião mostra que, desde a última sondagem do mesmo instituto, realizado em abril, o novo partido encabeçado por Nigel Farage subiu seis pontos percentuais nas intenções de voto dos britânicos. O Labour de Jeremy Corbyn surge em segundo lugar, agora com 21%, menos sete pontos do que no mês passado, os Tories da primeira-ministra conservadora, Theresa May, aparecem em quarto lugar apenas com 11%, sendo ultrapassados pelos Liberais-Democratas de Vince Cable, que recolhem 12%, mais cinco pontos percentuais do que em abril.

No campo do Remain (partidos que querem que o Reino Unido continue na UE), os Verdes surgem com 8% das intenções de voto, o Change UK! (dissidentes do Labour e dos Tories) com 3% e o Partido Nacionalista Escocês (SNP) com 4%. A Escócia foi uma das duas nações do Reino Unido que votaram contra o Brexit no referendo de 23 de junho de 2016. A outra foi a Irlanda do Norte. Só Inglaterra e País de Gales votaram a favor. O resultado nacional, recorde-se, foi de 52%-48%.

"Nigel Farage e a sua gente não são quem vai dragar o pântano em que se transformou a política britânica, pois foram eles precisamente que criaram esse pântano. Criaram, literalmente, esta questão do Brexit, como se ela fosse a resposta para os problemas do país quando, na realidade, não é resposta a coisa nenhuma. Andamos obcecados com o Brexit há três anos, vamos continuar obcecados com o Brexit nos próximos anos se não atuarmos, dissermos que eles não falam pelos britânicos. Há muita gente que quer este assunto do Brexit resolvido de maneira sensata, que permita ficar na UE e lidar com os problemas reais que o país enfrenta: serviço nacional de saúde, alterações climáticas, economia, crime, todos os assuntos que têm sido relegados para segundo plano por causa do Brexit", declarou o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, numa entrevista, este domingo de manhã, a Sophy Ridge, na Sky News.

Em paralelo, numa entrevista ao Telegraph, o cabeça-de-lista do Partido do Brexit Nigel Farage afirma: "Eu ainda não tinha pelos vistos travado a minha maior batalha. Quando esta campanha acabar, o Partido do Brexit será maior do que os Conservadores". Farage, de 55 anos, é deputado no Parlamento Europeu há 20 anos e, durante esse tempo, tem usado a sua presença nesta instituição comunitária para minar, a partir de dentro, o projeto de integração na União Europeia. Assim que se soube que, por causa da extensão do Artigo 50.º, o Reino Unido teria, afinal, que participar nas eleições europeias, Farage foi o primeiro a anunciar o lançamento da sua campanha. Populista por natureza, o seu resultado pesará, em muito, no domínio que vão ter - ou não - no próximo hemiciclo os partidos eurocéticos populistas, nacionalistas, extremistas de direita.

Na Sky News, Blair foi confrontado com o resultado da sondagem Opinium, tendo a jornalista perguntado: "Finalmente está pronto a admitir que percebeu tudo mal? Que, de facto, as pessoas não querem um segundo referendo?". O ex-primeiro-ministro trabalhista, o grande ideólogo da teoria política da Terceira Via. tomou nota dos números, mas insistiu: "Eu não acredito que a maioria das pessoas pense que Nigel Farage fala em nome de todo o país. O que podemos dizer é que o país está profundamente dividido e, por isso, um segundo referendo poderia ser um processo de cura".

Apesar de tudo, ex-chefe de governo que liderou, com os EUA de George W. Bush, a invasão do Iraque sem aval da ONU, também não poupa críticas ao Partido Trabalhista liderado por Corbyn. "Vejo muita gente trabalhista que diz que atualmente não consegue votar no Labour. E eu digo-lhes que não fiquem em casa e que, pelo menos, vão votar nalgum dos outros partidos que defendem a permanência do Reino Unido na UE", declarou Blair, de 66 anos, na Sky News.

Também este domingo, num artigo de opinião publicado no Observer, Blair acusa do Labour de ter praticado uma "indecisão destrutiva" no que toca ao Brexit e que isso "não agradou a ninguém". Corbyn, que apesar de ter incluído a hipótese de um segundo voto no programa do Labour para as europeias nunca foi muito partidário da ideia, nada tem feito de construtivo em relação ao Brexit a não ser criticar May e o seu governo conservador. Ninguém acredita que as negociações em curso entre trabalhistas e conservadores, para encontrar um acordo de Brexit alternativo ao que já foi chumbado três vezes, deem frutos. E muitos suspeitam que, na realidade, o dirigente dos trabalhistas até é favorável à saída da UE. Apesar de tudo, Blair, trabalhista que foi eleito para três mandatos em Downing Street, diz que vai votar Labour nestas eleições europeias.

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