Bispos esperam uma resposta "o mais rápido possível" de Ortega

Conferência Episcopal entregou carta ao presidente com propostas para democratizar a Nicarágua e pôr fim à crise e aos protestos que já fizeram pelo menos 134 mortos.

Os bispos da Nicarágua apresentaram ao presidente Daniel Ortega uma carta com propostas para democratizar o país e esperam uma resposta "o mais rápido possível", de forma a encontrar uma saída para a crise que levou milhares de pessoas às ruas e já fez pelo menos 134 mortos.

"Apresentamos uma proposta que recolhe o sentimento de muitos setores da sociedade e expressa o desejo da maioria da população e esperamos uma resposta escrita o mais rapidamente possível", afirmou o presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua, o cardeal Leopoldo Brenes, após um encontro com Ortega.

"O presidente pediu-nos um par de dias para refletir sobre o conteúdo da carta e dar-nos uma resposta", disse o bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez.

A carta contém as propostas para a democratização da Nicarágua e as reformas constitucionais para o permitir, disseram os bispos, que não adiantaram pormenores do conteúdo da missiva nem da conversa que mantiveram com o presidente. "O encontro decorreu em ambiente de serenidade, franqueza e sinceridade", segundo o comunicado dos bispos.

O papa Francisco manifestou no domingo dor pelos atos violentos que ocorrem na Nicarágua, como resultado da crise sociopolítica que começou a 18 de abril, e apelou para que o diálogo seja retomado, e se respeite a liberdade e a vida das pessoas.

Segundo o Centro de Direitos Humanos da Nicarágua, pelo menos 134 pessoas morreram durante os protestos, com as autoridades a responder de forma violenta às manifestações.

Origem dos protestos

A vaga de contestação sem precedentes contra o herói da revolução sandinista, que derrubou a ditadura em 1979, governou até 1990, e regressou à liderança do país após eleições em 2007, começou com a aprovação de uma reforma das pensões. Esta foi entretanto revogada.

Daniel Ortega, cuja vice-presidente é a mulher, Rosaria Murillo, é acusado de reprimir as liberdades e agarrar-se ao poder (foi reeleito em 2011 e 2016, após uma reforma da Constituição que permitiu a reeleição ilimitada). O presidente, por seu lado, fala numa "conspiração da oposição" para o derrubar.

Os bispos da Nicarágua atuam desde maio como mediadores entre o governo e a oposição, formada por representantes de estudantes, empresas e sociedade civil, mas decidiu suspender o diálogo após a morte de 16 manifestantes, a 30 de maio, dizendo que não iriam retomar as negociações enquanto durasse a repressão.

Os manifestantes continuam a bloquear as ruas das grandes cidades, assim como as principais estradas do país, incluindo a que liga Manágua a Mayasa, que é palco de inúmeros ataques perpetrados pela polícia e civis armados. Face aos atacantes, munidos com armas e granadas, os manifestantes respondem com pedras e projéteis lançados a partir de lançadores artesanais.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.