Bispo Edir Macedo promete orar por Dilma e pelo país

Presidente recorre a bispo da IURD, num momento em que a maioria das lideranças evangélicas, no Parlamento e também fora dele, se posicionam a favor do impeachment.

Dilma Rousseff telefonou na semana passada a Edir Macedo a pedir apoio na luta contra o impeachment. Em causa a influência que o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) exerce sobre o Partido Republicano Brasileiro (PRB), que tem uma bancada de 25 deputados e um senador no Congresso Nacional, importantes para as contas da votação. O bispo não prometeu nada à presidente além de "orar por ela e pelo país", de acordo com o jornal Folha de S. Paulo.

Num país em que se estima que a população evangélica já esteja perto dos 60 milhões - só atrás dos números dos EUA -, divididos em dezenas de igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais, o governo está preocupado com o facto de a maioria das lideranças da corrente cristã, dentro e fora do Parlamento, tenderem a defender a queda da presidente. O PRB, que constitui o braço político da IURD, declarou "independência" no auge da crise que culminou com a rutura do PMDB face ao PT.

Antes, fazia parte da base aliada, uma vez que Edir Macedo e o ex-presidente Lula da Silva tinham bom entendimento - a que não é indiferente o facto de haver um rival comum, o Grupo Globo, concorrente da Rede Record, ligada à IURD, e hostil ao PT, segundo o partido.

"A bancada do PRB decidiu por unanimidade sair da base do governo porque o cenário dos últimos meses torna insustentável continuar, somos independentes a partir de agora, colocamos o nosso ministério, o do Desporto, à disposição da presidente e, mais tarde, decidiremos se estamos contra ou a favor do impeachment", disse, no dia 16 de março, Marcos Pereira, presidente nacional do PRB. E, de facto, contra a sua própria vontade, George Hilton largou a pasta do Desporto a cinco meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Mas nada na política brasileira é assim tão simples por causa de interesses regionais, locais e individuais. O bispo Marcelo Crivella, único senador do PRB e uma das estrelas da sigla, tem discursado no Senado contra o impeachment. O que levou Silas Malafaia, pastor pentecostal, líder do ministério Vitória em Cristo e rival declarado de Edir Macedo, a pedir para Crivella "assumir de uma vez por todas que é a favor deste governo corrupto que está a destruir o Brasil" porque, acusa, o senador busca o apoio do PT na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro nas municipais de outubro. "Como cristão devo superar as infâmias de Malafaia", reagiu Crivella ao site noticioso Gospel Prime.

Com um senador acusado de ser pró-Dilma e 25 deputados a sair da base aliada, a Rede Record, braço comunicacional da IURD, tenta passar imagem de total independência. Um pivô foi obrigado a trocar a gravata encarnada (cor do PT) por uma rosa - o verde e amarelo (cores usadas pelos manifestantes antigoverno) também estão suspensos até nova ordem.

Bancada da Bíblia

Além do PRB, um mero partido, a Câmara dos Deputados hospeda uma bancada suprapartidária evangélica, conhecida como Bancada da Bíblia, que reúne 17 dos 25 deputados do PRB mas também 20 parlamentares do PSDB, maior força da oposição, e 21 do PMDB, que agora desembarcou do governo, totalizando, segundo dados atualizados pela revista Exame, 196 membros de um total de 513 deputados na Câmara. Quase todos eles são pelo impeachment.

A começar por Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados, membro da igreja Sara Nossa Terra e principal rosto anti-Dilma. Passando por Marco Feliciano, do Partido Social Cristão, pastor da Catedral do Avivamento e que em recente entrevista ao DN sublinhou que John Lennon morreu por ter dito que os The Beatles eram mais famosos do que Jesus Cristo. E a acabar em João Campos, pastor auxiliar da Assembleia de Deus, militante do PSDB e líder da bancada.

Eles são o reflexo da natural aversão dos evangélicos contra o PT. O Conselho Apostólico, fundado por 70 apóstolos e profetas, publicou um manifesto na quinta-feira no qual dizia sentir "uma batalha espiritual pelo controlo do país". "A igreja não deve ser indiferente diante da corrupção, da degradação moral, da banalização da ética e do decoro", no que pode ser entendido como crítica ao governo. Outro grupo promoveu ações de jejum e oração no mesmo dia das manifestações pelo impeachment, às quais aderiram milhares de evangélicos.

Uma minoria

Mas há espaço também para uma corrente minoritária que é contra a destituição de Dilma. Na última semana, 120 pessoas reuniram-se em São Paulo "na defesa da democracia". O pastor Ariovaldo Ramos, líder da ONG Missão na Íntegra, considerou que "a vontade de Deus passa pelo voto". Em conversa com o DN, Ramos queixou-se de sofrer "agressões, até agora apenas verbais e online, por pertencer a uma corrente minoritária entre os evangélicos".

"A hostilidade dos evangélicos contra o governo resulta de um embate moralista e sempre que se discute moral inviabiliza-se o diálogo, além disso há uma resistência histórica, potenciada por uma media que toma partido, a tudo o que se pareça mesmo que levemente a marxismo, achando que com o PT a liberdade do país está em jogo", conclui Ramos.

São Paulo

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