João Lourenço: O "Exonerador Implacável"

O Fundo Soberano de Angola (FSDEA), liderado por José Filomeno dos Santos, um dos dez filhos do ex-chefe de Estado, é para já o único a escapar às exonerações do presidente angolano

Em 50 dias de governação, João Lourenço mexeu em praticamente todas as administrações que herdou de José Eduardo dos Santos, dos petróleos aos diamantes, passando ainda por todas as empresas públicas de comunicação social e bancos estatais. Esta quarta-feira, a razia chegou aos filhos do antigo chefe de Estado angolano e a redes sociais já lhe deram o título de "Exonerador Implacável".

Quase dois meses depois de ter tomado posse, o Presidente angolano exonerou Isabel dos Santos, filha do anterior chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, da presidência do Conselho de Administração da Sonangol, nomeando para o seu lugar Carlos Saturnino, que tinha sido afastado compulsivamente há cerca de um ano.

João Lourenço decidiu também pôr um ponto final no contrato que dava a gestão do canal 2 da Televisão Pública de Angola (TPA) à Semba Comunicação, empresa que tinha como sócios outros dois filhos de José Eduardo dos Santos: Welwitshea 'Tchizé' dos Santos e José Paulino dos Santos 'Coreon Du'.

"Benzei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam". Foi com esta a mensagem que Tchizé dos Santos, cujo verdadeiro nome é Welwitschea dos Santos, reagiu às decisões.

A mensagem de Tchizé dos Santos foi curta, mas a publicação de Isabel dos Santos no Instagram foi enigmática. Exonerada de presidente do conselho de administração da Sonangol, a filha mais velha do homem que governou Angola durante 38 anos, partilhou uma imagem da conta de Instagram da joalharia Christie's.

Segundo o jornal Expresso, foi pouco depois de uma aventura empresarial com o Miami Beach Club, a qual não correu particularmente bem, que, em 1999, Isabel dos Santos entrou no negócio dos diamantes em Angola. O governo angolano, contou o jornal num artigo de 2016, tinha atribuído à Ascorp o direito exclusivo de comercialização de diamantes angolanos, e Isabel assegurava uma percentagem de 24,5% da nova sociedade através da empresa TAIS, que detinha com a sua mãe, Tatiana Kukanova.

Em 2013, a revista norte-americana Forbes noticiou que Isabel dos Santos se tinha tornado na primeira mulher bilionária em África. Quatro anos depois estimava a sua fortuna pessoal em 3,4 mil milhões de dólares, mais do que qualquer outra mulher no continente africano.

Pelo meio, inúmeros "títulos" na imprensa internacional: o britânico Guardian chamava-lhe "Princesa", o espanhol El País "Rainha de África e Imperatriz de Portugal", o Le Monde comparava-a a uma "oligarca russa" (é filha de Tatiana Kukanova, uma jogadora de xadrez russa que estudava geografia).

Isabel dos Santos é a mais famosa filha do ex-chefe de Estado angolano, mas José Eduardo dos Santos tem mais nove filhos, fruto de outras três relações.

Até ao momento, apenas o Fundo Soberano de Angola (FSDEA), liderado por José Filomeno dos Santos, outro dos filhos do ex-chefe de Estado, escapa à razia do "Exonerador Implacável".

Nas ruas, também é esse o assunto que domina as conversas em Luanda.

"Quando me apercebi que a filha do [ex-] Presidente tinha sido exonerada eu fiquei bem contente meu irmão", contou, à Lusa, Adão Manecas, motorista de 24 anos. "Queria que acontecesse mais exoneração, porque tem muita coisa que tem que se fazer mesmo neste país. Depois de Isabel, há muitas pessoas para exonerar", desabafou, admitindo acreditar acreditar que alguma coisa está a mudar no país, quando antes pensava que "era tudo farinha do mesmo saco".

"São coisas boas. E coisas melhores estão para vir", defendeu Vítor Lopes, de 39 anos. "Foi coisa boa que fez", diz ainda, referindo-se, sem rodeios, às consecutivas exonerações decididas por João Lourenço.

Já hoje, a ministra da Saúde angolana exonerou as administrações de dois dos maiores hospitais públicos do país, em Luanda, além do inspetor-geral e diretor nacional da saúde.

* com Lusa

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