Atenas avisa credores de que não pode com mais medidas de austeridade

Ministro das Finanças grego, Euclid Tsakalotos, escreveu carta a responsáveis da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional

A Grécia informou os credores internacionais que não pode implementar medidas de austeridade extra exigidas pelos mesmos em troca de novas tranches daquele que é o seu terceiro resgate. Isso mesmo consta de uma carta dirigida pelo ministro das Finanças gregos, Euclid Tsakalotos, a responsáveis da Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional, noticiaram os media gregos, a agência Reuters e o Euobserver.com.

"Não podemos fazer quaisquer alterações substanciais. Mas iremos prosseguir com as emendas técnicas que foram discutidas. Algumas delas vão na direção certa", disse um responsável do governo de Alexis Tsipras, que falou a coberto do anonimato à Reuters. O Ministério das Finanças grego não comentou oficialmente a notícia e uma fonte da Comissão Europeia fez saber apenas que estão a "ser trabalhadas as medidas finais" depois de terem sido suscitadas dúvidas por parte de Atenas.

Algumas das medidas extra prendem-se com as pensões, as privatizações e a venda de ativos tóxicos a nível de hipotecas. Segundo o jornal Ta Nea, entre os pontos de discórdia estão a privatização do operador de rede ADMIE e o congelamento dos salários de serviços essenciais como a polícia e a guarda costeira. Num debate parlamentar na semana passada, o primeiro-ministro Tsipras disse que um congelamento de salários deste tipo de profissionais seria "uma injustiça para os homens e as mulheres das forças armadas, da polícia e da guarda costeira, os quais trabalham 24 horas por dia para ajudar um país que está a lidar com uma crise de refugiados que não tem precedentes e a tentar manter-se de pé". Até março, antes do acordo UE-Turquia, tinham chegado a território grego 26 971 migrantes e refugiados.

Não está claro, para já, se as reticências apresentadas por Atenas poderão pôr em causa a libertação de uma tranche no valor de 10,3 mil milhões de euros por parte dos credores internacionais (mais conhecidos como troika). O governo grego precisa desse dinheiro para pagar em junho um reembolso dos empréstimos do FMI, caso contrário entraria em incumprimento. Não seria, porém, a primeira vez que tal aconteceria. Já sucedeu no final de junho de 2015. Na semana passada, os gregos concluíram mais uma revisão do seu programa e viram aberta a porta para um alívio da dívida no futuro. Atualmente a dívida pública da Grécia é da ordem dos 180% do PIB. O país, liderado por um governo de coligação entre o Syriza de Tsipras e os nacionalistas Gregos Independentes, já vai no terceiro resgate desde 2010 (o último tem o valor de 86 mil milhões de euros).

À medida que se agrava a situação económica do país (ontem foi divulgado que a economia contraiu 0,5% no 1.º trimestre, por comparação a 2015), agrava-se também a situação política. Tsipras goza de uma maioria de apenas 153 deputados em 300, tem havido greves e manifestações nas ruas. Em protesto contra as medidas de austeridade que foram aprovadas recentemente um deputado do Syriza, Vassiliki Katrivanou, pediu a demissão na semana passada. A desilusão é patente entre os gregos, que acreditaram na retórica anti-troika de Tsipras e o Syriza está agora em queda nas sondagens.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.