"Ataque a Bolsonaro expressa ambiente de crescente radicalização no Brasil"

Que impacto poderá ter o ataque a Jair Bolsonaro nas sondagens, na campanha para as eleições de 7 de outubro, no desfecho das mesmas, na forma de fazer política, na sociedade e, até, no futuro do Brasil?

Jair Bolsonaro, candidato do Partido Social Liberal (PSL) às presidenciais de 7 de outubro no Brasil, foi esfaqueado na barriga durante uma ação de campanha em Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, na quinta-feira. Submetido a cirurgia, o candidato de 63 anos, conhecido pelas suas propostas extremistas, que vão de esterilizar os pobres a armar o cidadão comum, disse esta sexta-feira estar recuperando bem e garantiu que nunca fez mal a ninguém.

O agressor, Adélio Bispo, ex-militante do Partido Socialismo e Liberdade e do Partido Democrático Trabalhista, declarou-se culpado e, segundo o seu advogado, agiu "sem intenção de matar" por "motivações religiosas, de cunho político e também com relação ao preconceito que Bolsonaro sempre exterioriza nas falas dele de raça, religião, contra a mulher inclusive". A família do atacante, citada pelos media brasileiros, referiu que ele já dera no passado várias vezes sinais de distúrbios mentais.

Após o ataque, amplamente condenado, dentro e fora do Brasil, um dos filhos de Bolsonaro, Flávio, sentenciou: "Ele está mais forte do que nunca, consciente, conversando, bem-humorado. Um recado para esses bandidos que tentaram arruinar a vida de um cara que é um pai de família, que é esperança para todos os brasileiros: vocês acabaram de eleger o presidente, vai ser no primeiro turno". O líder do PSL, Gustavo Bebianno, foi mais longe e declarou: "Agora é guerra".

Face a isto, muitos são os que se questionam qual será o impacto do ataque a Bolsonaro, nas sondagens, na campanha para as eleições, no desfecho do escrutínio, na forma de fazer política, na sociedade e, até, no futuro do Brasil.

Primeira ou segunda volta?

"Sendo que é um filho de Bolsonaro que diz isso, demonstra um desejo, não uma avaliação factual. Faz parte do enredo falar uma coisa desse género, para entusiasmar o eleitorado de Bolsonaro, mas também para tentar atrair alguns novos eleitores. É difícil medir agora, antes de saírem sondagens, os efeitos. O mais plausível é que talvez haja uma quebra na taxa de rejeição do candidato, porque a solidariedade face a um episódio desse tipo pode não produzir apoio, mas pode reduzir a rejeição que alguém tem por parte dos outros. É só uma hipótese. Prefiro aguardar pelas sondagens", diz ao DN Claúdio Couto, professor adjunto do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas.

"Isto muda a campanha brasileira. Devo dizer, com toda a franqueza, que apesar de tudo, e em política já não tenho certezas, isto não chega para ele ganhar as eleições no Brasil. Essa é a minha convicção. Mas chega, e não tenho a mínima dúvida, para ele chegar à segunda volta", afirma ao DN Francisco Seixas da Costa, embaixador de Portugal no Brasil entre 2005 e 2009.

Isto "vai mudar as eleições. A tática que Lula [da Silva] vinha a seguir nestas eleições acaba por falhar com este atentado. Lula [do Partido dos Trabalhadores] tinha tentado criar uma vitimização em função da sua prisão, estes recursos e toda esta situação era no sentido de ir criando um ambiente emocional até ao limite possível e depois, no fim, tentar transferir o seu poder de voto para o candidato [do PT] Fernando Haddad. Todo este caráter emocional que marcava a campanha para o lado de Lula, desloca-se muito rapidamente para o lado de Bolsonaro. As atenções públicas brasileiras estão hoje muito mais concentradas em Bolsonaro do que estavam anteontem. E se há alguém que, neste momento, pode jogar a carta da vitimização é Bolsonaro, não Lula", nota o diplomata português.

"As atenções públicas brasileiras estão hoje muito mais concentradas em Bolsonaro do que estavam anteontem. E se há alguém que, neste momento, pode jogar a carta da vitimização é Bolsonaro, não Lula"

"A facada que atingiu o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora é o exemplo mais grave da polarização que afeta a sociedade brasileira na campanha presidencial. O ato - inaceitável - demonstra que a lógica da política está totalmente distorcida no Brasil, com os ânimos muito acirrados à medida que a campanha avança. Não dá para esquecer que a caravana do ex-presidente Lula, hoje preso em Curitiba, foi alvo de tiros no começo de abril deste ano, no sul do país", escreveu esta sexta-feira Raquel Landim, no jornal brasileiro Folha de São Paulo.

No mesmo diário, o jornalista Bruno Boghossian, mestre em Ciência Política pela Universidade Columbia, nos EUA, alerta: "Pouco importa agora se Bolsonaro tem posições radicais ou se é intolerante; ou se o autor do atentado tem problemas psicológicos. A arena política saiu do controle. Cabe aos protagonistas dessa cena a tarefa de domar o monstro - ainda que nenhum deles queira ou deva assumir sozinho sua paternidade. Se o ataque não servir para que os líderes percebam que a radicalização precisa ser contida, e não alimentada em troca de benefícios eleitorais, desceremos os últimos metros rumo à barbárie absoluta".

Brasil afogado num mar de bílis?

"Do jeito que vão as coisas, o Brasil vai acabar se afogando em um mar de bílis. O ataque a Jair Bolsonaro é a mais recente - e talvez a mais grave evidência - de que o ódio impregnou de tal maneira partes substanciais da sociedade que qualquer hipótese de conciliação se torna perto de impossível. Não é porque Bolsonaro foi a vítima que deixa de ser também responsável por essa maré montante de ódio. Quem, como ele, sugere "metralhar" petistas está semeando a intolerância. Não estou dizendo que haja uma relação de causa e efeito entre a frase do candidato e o ataque a ele. Seria estúpido dizer que a culpa pelo atentado é da vítima. Não é isso. O que existe é um ambiente de radicalização horroroso pelo qual todos os partidos são de alguma forma responsáveis", notou, também na Folha de São Paulo, o repórter Clóvis Rossi, membro do Conselho Editorial do jornal e vencedor do prémio de jornalismo Maria Moors Cabot.

Falar em guerra, como fez o líder do partido pelo qual Bolsonaro é candidato ao Planalto, "é um exagero retórico e uma tentativa de culpar os adversários por aquilo que aconteceu", nota o professor Cláudio Couto, em declarações ao DN. "Aquilo que aconteceu, expressa, na realidade, um certo ambiente político que se vem produzindo no Brasil já há alguns anos e que é de crescente radicalização. Não é algo tão recente assim. Analisando isso em detalhe, eu diria que é algo que remonta a 2005, época do Mensalão. Daí em diante vai-se produzindo no país um discurso cada vez mais polarizado em relação a esquerda e direita. Um discurso cada vez mais duro, que prosseguiu em espiral, tendo culminado no impeachment, que é bastante controverso. Bolsonaro é apenas o fruto mais vistoso deste processo de radicalização. Ele é uma consequência, um instigador, beneficiário e, agora, ironicamente, é uma vítima dessa radicalização", sublinha o cientista político, da Fundação Getúlio Vargas.

"O que existe é um ambiente de radicalização horroroso pelo qual todos os partidos são de alguma forma responsáveis"

"A situação política desta eleição já de si é de grande tensão, uma tensão que é marcada pela leitura que uma parte da população do Brasil faz relativamente à situação de Lula e à que consideram ilegitimidade da sua manutenção na prisão, dado que é manifestamente o candidato mais popular. Este atentado vai criar, num ambiente que já de si era muito conflitual, uma situação de exceção, de imprevisibilidade. Porque a vida brasileira hoje em dia é muito marcada pela predominância de fatores de nível emocional, muito mais do que a racionalidade, mesmo na observação dos candidatos e dos programas políticos. Vive-se hoje um ambiente hiperemocional. Estive no Brasil recentemente e senti isso. Em que as famílias estão divididas, em que as pessoas estão em constante confronto político e até verbal. Diante de uma situação destas e perante um candidato que é radical, de um determinado setor radical, vai potenciar essa situação", refere ao DN o embaixador Seixas da Costa.

Donald Trump ou Rodrigo Duterte?

O diplomata agora aposentado lembra-se de que quando estava no Brasil, "ninguém pensava que [Bolsonaro] algum dia pudesse chegar a ter este potencial que tem hoje. Era tido como uma figura profundamente caricata no plano da afirmação política. O que se prova nos últimos anos, e o caso [Donald] Trump é uma evidência disso, é que este tipo de candidatos tem o seu mercado. Bolsonaro tem o seu mercado".

"Bolsonaro é um caso particular porque é um candidato extremista. É alguém que faz um culto à violência. O gesto de campanha dele, que ele faz, é o de disparar uma arma", aponta Cláudio Couto, notando que "ele diz que a polícia deve ter licença para matar e que os polícias envolvidos em homicídios deviam ser condecorados. É o culto da violência, é a apresentação da violência como solução para todos os problemas que agora, ironicamente, reverte contra ele. Vai-se produzindo um ambiente de intolerância e de radicalização".

E a intolerância, ódio, radicalização ficam sobretudo no discurso político? Em que medida estão patentes na sociedade brasileira e no seu quotidiano? "No que toca à sociedade brasileira, ela já é muito violenta, basta olharmos para os índices de criminalidade, por um lado, e por outro para o uso da força letal pela polícia, porque os polícias matam. A violência está presente. Mas olhando para a política, sim, então há novidade", refere o cientista político brasileiro ao DN.

O que preocupa, sublinha o académico da Fundação Getúlio Vargas, "na eventualidade de Bolsonaro vencer as eleições, é o perfil do próprio político, que elogia a tortura, que afirma que o regime militar no Brasil foi um momento auspicioso, é uma personagem parecida com Rodrigo Duterte nas Filipinas. Alguém que entende que pode ser eleito e, depois de ser eleito, pode ir usando os poderes a que tem direito para minar a democracia fazendo uso da violência. O apoio que ele tem entre polícias e militares em vários estados é preocupante. Vejo aí uma espécie de milícias ao serviço do candidato". Mas tal risco, sublinha, só existiria se "Bolsonaro ganhasse efetivamente as eleições".

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