Assange quer negociar com Londres para evitar ser detido

Justiça sueca arquivou processo por violação que pendia contra o australiano. Polícia britânica já avisou que este será preso assim que abandonar a embaixada do Equador

"O caminho está longe de chegar ao fim. A guerra, a guerra propriamente dita está apenas a começar", disse ontem Julian Assange, da varanda da embaixada do Equador em Londres, levantando o punho cerrado em sinal de vitória. A justiça sueca anunciou ontem a decisão de abandonar o processo contra o fundador da WikiLeaks, mas a polícia britânica já avisou que deterá o australiano se este abandonar o local onde se encontra refugiado desde junho de 2012.

Assange, acusado de violação pelas autoridades suecas, pediu asilo político ao Equador há cinco anos para evitar ser extraditado para a Suécia, receando que Estocolmo o entregasse aos Estados Unidos para enfrentar as acusações por causa dos documentos militares e diplomáticos classificados divulgados pela WikiLeaks.

Ontem, já sem o peso do processo da justiça sueca, Julian Assange afirmou estar preparado para falar com o Reino Unido - onde ainda pende sobre si um mandado de prisão por falta de comparência em tribunal em 2012 - "sobre qual o melhor caminho a seguir", mas também com o Departamento de Justiça norte-americano.

Para a procuradora-geral sueca, Marianne Ny, o arquivamento deste processo deve-se à falta de perspetivas de que o australiano fosse entregue à justiça em breve e não uma "uma declaração sobre a sua culpa ou inocência", deixando claro que a investigação poderá ser reaberta se Assange for à Suécia até à prescrição do delito, em 2020.

A sueca que acusa Assange de violação declarou-se "chocada" e considerou um "escândalo" a decisão da procuradoria do seu país.

A polícia britânica garantiu ontem ser "obrigada" a deter o australiano assim que ele abandonar a embaixada do Equador, executando o mandado que existe contra ele. Em comunicado, a polícia adiantou ainda que, tendo em conta que agora Assange é procurado "por uma ofensa muito menos grave", o nível de recursos usados "será proporcional a essa ofensa".

A primeira-ministra britânica afirmou ontem que cabe à polícia decidir se Assange deve ser preso se deixar a embaixada do Equador. Questionada se apoia a extradição do australiano para os Estados Unidos, Theresa May respondeu que analisam "os pedidos de extradição quando os recebemos, caso a caso". "Quanto a Julian Assange, qualquer decisão tomada sobre a ação do Reino Unido em relação a ele se ele deixar a embaixada equatoriana deve ser uma questão operacional para a polícia", acrescentou.

Barry J. Pollack, o advogado que representa o fundador da WikiLeaks nos Estados Unidos, disse ao The Guardian que a decisão da Suécia "apenas sublinha o facto de que o senhor Assange estar ilegalmente detido há anos". "Comentários recentes feitos pelo procurador-geral dos Estados Unidos e pelo diretor da CIA demonstram a necessidade óbvia de asilo do senhor Assange. O Reino Unido não tem base legítima para interferir com a decisão legal do Equador", acrescentou o advogado.

Jeff Sessions, o procurador-geral norte-americano, afirmou recentemente que prender Assange era uma "prioridade" para os Estados Unidos, enquanto Mike Pompeo, o diretor do CIA, descreveu a WikiLeaks como um "serviço de informações hostil".

O Equador saudou a decisão da justiça sueca e pediu ao Reino Unido que permita "uma saída segura" do país ao fundador da WikiLeaks. "O mandado de detenção europeu já não é válido. O Reino Unido deve fornecer uma saída segura a Julian Assange", escreveu no Twitter o ministro dos Negócios Estrangeiros equatoriano, Guillaume Long.

Quito lamentou, porém, que "tenha demorado mais de quatro anos" para o procurador sueco ter interrogado Assange nas instalações da embaixada do Equador em Londres, o que aconteceu em novembro. "Foi um atraso completamente desnecessário", sublinho o líder da diplomacia equatoriana.

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