Assad deixa entrar ajuda em Ghouta enquanto prossegue com ataques

Organização Mundial de Saúde diz que forças do governo retiraram do comboio humanitário 70% do material médico

Os camiões de ajuda chegaram ontem a Ghouta Oriental pela primeira vez desde que começaram os ataques naquela região, mas as forças do regime de Bashar al-Assad retiraram alguns bens médicos do comboio humanitário, enquanto continuavam os combates por via terrestre e aérea.

O exército sírio, apoiado pelos russos, já conquistou mais de um terço de Ghouta nos últimos dias, ameaçando dividir em dois o último grande enclave rebelde perto de Damasco, apesar das acusações do Ocidente de violação do cessar-fogo aprovado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há uma semana, a Rússia anunciou unilateralmente uma trégua diária de cinco horas, sem sucesso.

A ONU afirma que 400 mil pessoas estão retidas dentro do enclave e que já havia no local escassez de comida e medicamentos antes do ataque iniciado há duas semanas pelas forças governamentais. Um alto funcionário da ONU que acompanhava ontem o comboio humanitário disse "não estar satisfeito" por ouvir bombas perto do ponto de passagem para Ghouta Oriental apesar do acordo de que a ajuda poderia passar em segurança. "Precisamos que nos garantam que conseguiremos entregar a ajuda humanitária em boas condições", declarou Ali al-Za"tari à Reuters no ponto de passagem. No domingo, a informação das Nações Unidas era de que o comboio humanitário seria composto por 46 camiões.

Um balanço do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) adiantava que pelo menos 44 civis foram mortos ontem em ataques aéreos contra Ghouta Oriental, havendo registo de 190 feridos. Desde que foi lançada a 18 de fevereiro uma intensa campanha aérea seguida de uma ofensiva terrestre contra o enclave rebelde, foram mortos 724 civis, entre os quais 170 crianças, segundo Rami Abdel Rahmane, diretor do OSDH.

Fonte da Organização Mundial de Saúde adiantou que o governo de Bashar al-Assad ordenou a retirada do comboio humanitário de 70% do material médico, impedindo que estojos de emergência, kits cirúrgicos, insulina e outros bens vitais chegassem a Ghouta Oriental. O Comité Internacional da Cruz Vermelha confirmou que algum material médico foi retirado, mas não deu mais detalhes.

O presidente Bashar al-Assad prometeu no domingo continuar a pressão militar sobre Ghouta Oriental. "Vamos continuar a combater o terrorismo e a operação de Ghouta é uma continuação da luta contra o terrorismo", disse o líder sírio em declarações emitidas pela televisão estatal.

Numa conversa telefónica com o seu homólogo russo, o presidente francês, Emmanuel Macron, pediu a Vladimir Putin "medidas reais e concretas" para que o regime sírio "aceite sem ambiguidade" um cessar-fogo em Ghouta Oriental. Segundo o Eliseu, Macron pediu ainda à Rússia para "demonstrar a credibilidade dos seus compromissos", numa altura em que, até ao momento, "nenhuma retirada de doentes e feridos foi autorizada pelo regime" de Assad.