As férias no Irão e a namorada refugiada do ministro anti-imigração abalam Oslo

O futuro político de Per Sandberg está em risco e a primeira-ministra, à frente de um governo de coligação, está a ser pressionada para o demitir, arriscando abalar o governo. Ministro recusa afastar-se, reiterando que a visita foi privada.

Se tem conta no Facebook ou no Instagram e está de férias, o mais provável é que já tenha partilhado com os amigos alguma fotografia em que revela o que tem estado a fazer e o destino que escolheu para o seu descanso de verão. No caso do ministro das Pescas norueguês, Per Sandberg, as fotos partilhadas pela namorada nas redes sociais tornaram-se um problema que lhe pode custar não apenas o emprego, mas deixar todo o governo em risco.

O problema do ministro começa com o destino que escolheu para as férias: o Irão. Isto porque viajou sem avisar as autoridades norueguesas, como está previsto nas regras do governo, especialmente tendo optado por fazer turismo num país que Oslo critica pela situação de direitos humanos (ainda aplica, por exemplo, a pena de morte).

"Apesar de achar que há lugares bonitos no Irão e de ter conhecido muitas pessoas maravilhosas, isso não significa que eu apoio o regime iraniano", defendeu-se o ministro, reiterando que a visita foi pessoal.

Mas, para cúmulo, Sandberg admitiu que foi para as férias com o telemóvel dado pelo governo - obrigando os responsáveis de segurança a confiscá-lo agora que já está de regresso à Noruega, por receio de que possa ter sido alvo de piratas informáticos e tenha posto informações confidenciais em risco.

O ministro reconheceu entretanto que já tinha feito o mesmo noutra viagem à China, onde fora promover as exportações de marisco norueguês, quando a regra nas idas a países considerados de risco é receber um novo computador e telemóvel, que são devolvidos à chegada.

A namorada

Mas essas duas falhas até podiam ser perdoadas não fosse o ministro de 58 anos, que pertence ao Partido do Progresso (direita) e é conhecido pelas posições anti-imigração, ter viajado com a nova namorada: a refugiada Bahareh Letnes, de 28 anos, que tem dupla nacionalidade iraniana e norueguesa.

Nascida no Irão, Letnes foi ainda jovem para a Noruega, mas por três vezes as autoridades rejeitaram o seu pedido de asilo e deportaram-na à força para o Irão. Contudo, os iranianos devolveram-na à Noruega, que finalmente lhe autorizou a residência em 2008, alegando que ela era jovem e arriscava ser forçada a casar-se no seu país natal. Neste processo, recebeu também o passaporte iraniano. Letnes foi eleita Miss Irão em 2013.

O governo defendeu, ainda há três anos, que fosse revogada a autorização de residência a quem tem o estatuto de asilado mas viaja de férias ao país natal. Após esta polémica, o ministro diz que a namorada não está abrangida, porque já é cidadã norueguesa.

O governo norueguês é, desde 2013, fruto da coligação de direita entre o Partido Conservador, da primeira-ministra Erna Solberg, e o Partido do Progresso, do qual Sandberg é o número dois. Conta com o apoio parlamentar do Partido Liberal e do Partido Democrata Cristão. Desde os partidos do governo até aos da oposição, todos têm criticado o ministro, e há pressões para o demitir. Está previsto que tenha de enfrentar a comissão disciplinar do Parlamento, sendo certo que a primeira-ministra também tem que responder aos deputados.

Outras polémicas

Desde que as férias do ministro vieram a público que os jornalistas têm descoberto outros problemas - e está agora em questão a sua ligação ao Irão. Sondberg e a namorada estiveram, por exemplo, na festa da Independência na embaixada do Irão, com o ministro a assistir não na condição de cidadão particular, mas de membro do governo - mais uma vez sem avisar.

Além disso, apesar de alegar que a visita foi de carácter privado e não houve contacto com o governo, Sandberg teve mais tarde de admitir que as autoridades iranianas tentaram marcar uma reunião. Ele recusou por estar precisamente de férias e não a título oficial - já visitou o Irão em trabalho, em outubro de 2016, para tentar aumentar as exportações de salmão norueguês.

A empresa da namorada do ministro, criada no início deste ano, também está debaixo de suspeitas. A companhia de Letnes destina-se precisamente a aumentar as exportações norueguesas de marisco para o Irão, levantando dúvidas sobre a existência de conflito de interesses visto Sandberg ser ministro das Pescas. Os jornalistas descobriram ainda que Letnes se candidatou ao cargo de assistente de Sandberg em 2016 (ele disse que não sabia), antes de ambos começarem a namorar.

Numa entrevista conjunta à NRK, o ministro e a namorada responderam às várias críticas que foram feitas. Entre elas, o facto de Letnes aparecer sem véu a cobrir o cabelo nas fotos. Ela respondeu que deixava a hijab "cair" quando não estava polícia ao pé. Além disso, puderam viajar sem ser casados (uma violação das leis locais) evitando hotéis e ficando em alojamentos privados, referiu Sandberg.

O tema tem dominado os jornais noruegueses nas últimas duas semanas, sendo possível acompanhar a história em inglês através dos artigos do site newsinenglish.no (editado por Nina Berglund, que ajudou a fundar o já extinto site em inglês do jornal Aftenposten, o de maior circulação na Noruega), que serviram de fonte para este texto.

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