Após o choque, Colômbia quer voltar à mesa de negociações com as FARC

"Não" impôs-se pela margem mínima. Ausência de penas de prisão e a participação política da guerrilha terão influenciado

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, sempre disse que não havia um plano B caso os eleitores dissessem "não" ao acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Mas agora que foi essa a decisão da maioria (50,2% contra 49,7%, menos de 54 mil votos de diferença), o presidente apressa-se a manter vivas as negociações, convidando os opositores do acordo para dialogar, de forma a evitar que o trabalho dos últimos quatro anos em Havana seja desperdiçado. Para já, tanto governo como a guerrilha reafirmaram a decisão de manter o cessar-fogo.

Menos de 24 horas depois do choque nas urnas, que adia por tempo indeterminado o fim de um conflito com mais de meio século que já fez 220 mil mortos e milhões de vítimas, Santos recebia na Casa de Nariño os representantes dos partidos políticos. No final da reunião de três horas, todos concordaram em criar uma comissão que inclua os partidos que defenderam o "não" no referendo - onde a taxa de abstenção foi de 62,5%.

Mas o que devia ter surgido como um momento de união de todos, acabou por ficar marcado pela ausência do principal opositor ao presidente - o seu antecessor, Álvaro Uribe, líder do Centro Democrático. Ausente por considerar que "este não é o momento adequado", o partido disse contudo em comunicado que está disponível para dialogar e conseguir um "pacto nacional". Essa foi a expressão usada por Uribe para reagir ao resultado do referendo, falando da necessidade de corrigir os "erros" do acordo e lembrando que "todos queremos a paz".

Quando os resultados já eram oficiais, Juan Manuel Santos fez uma declaração ao país na qual garantiu que "o cessar-fogo e de hostilidades bilateral e definitivo continua vigente e continuará vigente". Em seguida, anunciou a convocatória de todas as forças políticas "para abrir espaços de diálogo e determinar o caminho a seguir". O presidente, que apostou tudo num referendo que não era obrigatório por lei, disse ainda que não se renderá e que continuará "a procurar a paz até ao último minuto do meu mandato, porque esse é o caminho para deixar um país melhor aos nossos filhos".

Na primeira reação desde Havana, o líder das FARC, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, lamentou "que o poder destrutivo dos que semeiam o ódio e o rancor tenha influenciado a opinião da população colombiana". Contudo, acrescentou que as FARC "mantêm a sua vontade de paz e reiteram a sua disposição de usar somente a palavra como arma de construção para o futuro". Já ontem, numa mensagem vídeo, Timochenko reafirmou a continuação do cessar-fogo "para libertar as vítimas do conflito e respeitar o acordo com o governo".

Renegociar o acordo

Antes de voltar à mesa de negociações, será preciso perceber o que correu mal desta vez - e tudo se resume às alegadas facilidades que a guerrilha teve na altura de negociar. Os argumentos do "não" eram três: impunidade na justiça, participação política e dinheiro. E todos estes pontos são considerados inegociáveis para as FARC, pelo que renegociar um acordo pode tornar-se complicado.

Em relação à impunidade, a guerrilha conseguiu a garantia de que nenhum dos líderes da FARC teria que enfrentar penas de prisão pelos crimes contra a humanidade. Numa sondagem, 88% dos colombianos defenderam que os dirigentes deviam ser condenados. "O tema da prisão é inegociável para as FARC. É um tema de honra. Eles não querem voltar às montanhas, mas preferem faze-lo a aceitar que nos tratem como criminosos", dizia um artigo do jornal La Semana.

Naquela mesma sondagem, 75% dos colombianos disseram que não queriam que a guerrilha entrasse na política - o acordo garantia-lhes cinco deputados e cinco senadores nas duas próximas eleições gerais, caso não passassem do mínimo de 5% de votos. Mas trocar as armas pelos votos é parte essencial do acordo, sendo difícil as FARC abdicarem de ter uma voz política. Um dos argumentos do "não", nas últimas semanas, foi que isso seria abrir o país ao "castro-chavismo".

Finalmente havia a questão do dinheiro. Apesar de o líder da guerrilha ter mostrado abertura para participar nas indemnizações às vítimas, com o acordo as FARC não eram obrigadas a devolver o dinheiro que terão conseguido nos últimos anos graças ao narcotráfico e aos raptos. A verdade é que a guerrilha não foi obrigada a fazer uma "declaração de bens", desconhecendo-se o valor em questão.

Ontem, o principal negociador do governo colombiano, Humberto de la Calle, pôs o seu lugar à disposição, já depois de Santos lhe ter pedido que regressasse a Havana. Mas o presidente não aceitou a sua saída. De todo o mundo, multiplicaram-se os apelos para que seja possível chegar a um acordo, havendo internamente quem receie que a negativa dos colombianos possa fragilizar os líderes da guerrilha. Isso poderia ter como consequência o aparecimento de grupos que voltem a pegar nas armas, prejudicando mais o processo de paz.

"É obrigatório uma chamada à humildade e exigir tanto a vencedores como a vencidos que identifiquem os pontos de encontro para que o desejo de paz não se converta numa imensa frustração, com o consequente saldo de mortes, violência e deslocamentos internos", lia-se no editorial do jornal El Tiempo. "Isso implica relegar para segundo plano as vaidades pessoais e pensar no que convém a uma nação de 48 milhões de habitantes que merece um caminho diferente."

Efeito na economia

A paz pode não estar perdida, mas o "não" dos colombianos no referendo está já a ter consequências a nível da economia (a quarta maior da América Latina) - com o mercado e o peso colombiano a cair. Isto porque não só a comunidade internacional estaria à espera de um resultado positivo para aumentar o investimento no país, como agora estão em risco as reformas tributárias que estavam previstas.

Com o "sim" ao acordo com as FARC, Santos podia concentrar-se na apresentação da reforma, dentro de uma semana, que prevê o aumento das receitas de entre 1% a 2%, para responder à perda de rendimentos da venda de petróleo. Apesar de ainda ter uma maioria legislativa, o presidente pode agora ser forçado a diluir os aumentos de impostos face a uma oposição que saiu reforçada.

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