Após meses nas ruas, oposição mede forças nas urnas com Maduro

Elegem-se hoje 23 governadores na eleição que dividiu opositores e que o presidente quer usar para legitimar Assembleia Constituinte

Entre abril e julho as manifestações da oposição foram quase diárias na Venezuela, mas depois da eleição da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) as ruas silenciaram-se. As críticas e as sanções internacionais contra o presidente Nicolás Maduro não surtiram efeito e a tentativa de diálogo entre governo e opositores - na República Dominicana - acabou por gerar divisões na Mesa de Unidade Democrática (MUD). As mesmas divisões que são visíveis antes da eleição dos 23 governadores, com parte da oposição a defender a abstenção, considerando que participar é reconhecer as autoridades eleitorais que no passado acusaram de fraude, e a outra a apelar à ida em força às urnas para evitar que Maduro possa declarar vitória.

"Todos aqueles que votarem estarão a votar pela Assembleia Constituinte, reconhecendo o seu poder, porque é a ANC que convoca e que organiza" as eleições, defendeu o presidente no programa de televisão de Diosdado Cabello, número dois chavista. "Estas eleições regionais são uma oportunidade de ouro para consolidar a paz que prometemos e conseguimos a 30 de julho", acrescentou, referindo-se à data da eleição dos membros da ANC, boicotada pela oposição e não reconhecida por grande parte da comunidade internacional.

"O povo da Venezuela vai votar pela paz e vai dizer a Donald Trump [presidente dos EUA], com cada voto, "não te metas nos assuntos internos da Venezuela, que os assuntos internos resolvem os venezuelanos"", disse Maduro, que acusa Washington e Bogotá de estarem por detrás da "guerra económica" cujo objetivo é derrubá-lo. O país com as maiores reservas de petróleo do mundo, responsáveis por 96% das suas receitas, a queda do preço do ouro negro provocou uma crise profunda, com desabastecimento de alimentos e medicamentos, uma inflação que deve chegar aos 650% este ano e uma previsão de queda do PIB de 12%, segundo o Fundo Monetário Internacional (face aos 16,5% no ano passado).

Para a oposição, que organizou um referendo contra Maduro (não reconhecido pelo governo) e os protestos durante meses que resultaram na morte de 125 pessoas, a participação nas eleições não é consensual. E depois de quase dez anos unida em torno da MUD surgiram as primeiras divisões, com o aparecimento da mais radical aliança Soy Venezuela, que defende a continuação da luta nas ruas para derrubar Maduro. Um dos principais rostos do grupo é a ex-deputada Maria Corina Machado, que considera um engano estas eleições - que deviam originalmente ter ocorrido há um ano, mas que as autoridades eleitorais adiaram.

Mais de 18 milhões de eleitores vão eleger hoje os 23 governadores, sendo que atualmente só três são da oposição. Um deles é Henrique Capriles, governador de Miranda e por duas vezes ex-candidato presidencial da MUD, que está inabilitado pela justiça para cargos públicos e não se pode recandidatar. "Vou continuar convosco, vou continuar na luta, vou-me meter nas entranhas deste país, porque isso é o que sei fazer. Eu não me rendo e vocês também não se podem render", afirmou no ato de despedida, apoiando o candidato da MUD Carlos Ocariz e lembrando que a participação da oposição nas eleições não foi uma cedência ao governo mas um triunfo da pressão opositora. Capriles apela a votar para "libertar o país da ditadura de Maduro".

Segundo as sondagens, a MUD poderá eleger entre 10 e 18 governadores, estando muito dependente da participação dos eleitores. "À medida que aumentam os índices de abstenção, a oposição perde força eleitoral, reduz-se a sua vantagem e aumentam as probabilidades de que o chavismo entre em zonas onde não representa a maioria", indicou o analista político e presidente da Datanálisis, Luis Vicente León. E a oposição avisa ainda para o risco de manobras eleitorais por parte do governo - nas eleições para a Constituinte, a empresa responsável pelas máquinas de votação denunciou uma inflação no número de eleitores.

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