Apoiada por Bill e Bernie, Hillary já fez história. Falta bater Trump

Garantida a nomeação, candidata discursa hoje, após operação de charme que juntou o marido, o ex-rival e o presidente Obama

Michelle Obama apresentou-a como a mulher que fez que "os nossos filhos e filhas tenham como certo que uma mulher pode ser presidente dos EUA". Bernie Sanders disse-se "orgulhoso" de estar ao seu lado. E Bill Clinton garantiu que ela é "a melhor pessoa para concretizar mudanças que já conheci em toda a minha vida". À primeira-dama, ao senador do Vermont e ao ex-presidente devia juntar-se ontem o presidente Barack Obama num esforço conjunto para dar de Hillary Clinton uma imagem de maior proximidade e simpatia.

Depois de ter feito história ao tornar-se a primeira mulher candidata de um dos principais partidos à Casa Branca, hoje chega a hora de Hillary subir ao palco para garantir aos americanos que a escolha a 8 de novembro é entre ela e uma incógnita chamada de Donald Trump.

"Hillary vai tornar-nos mais fortes juntos. Vocês sabem disso porque ela passou a vida toda a fazê-lo. Espero que o façam. Espero que a elejam", afirmou um Bill Clinton emocionado no final de um discurso em que recordou: "Em 1971 conheci uma rapariga." O ex-presidente lembrou como ele e Hillary se apaixonaram na universidade de Yale e como foi ela quem um dia chegou ao pé dele na biblioteca e lhe disse: "Se vais estar a olhar para mim e eu estou a olhar para ti, mais vale apresentarmo-nos: Eu sou a Hillary Rodham e tu, como te chamas?"

Casados desde 1975, Bill e Hillary protagonizam um dos casamentos mais mediáticos da América - com ela a apoiá-lo dos tempos como governador do Arkansas até à Casa Branca e os papéis a inverterem-se quando ela se candidatou ao Senado e depois à presidência. Tantos anos no topo da política fizeram que os altos e baixos da relação enchessem páginas de jornais - como quando Bill esteve à beira da destituição [e do divórcio) após mentir em tribunal sobre a relação com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. A assistir ao discurso do pai na plateia do Wells Fargo Center de Filadélfia estava Chelsea, de 36 anos, a única filha do casal, que hoje deve apresentar o discurso da mãe.

Depois de um primeiro dia de convenção marcado pelas divisões e pelas vaias dos apoiantes de Bernie Sanders - mesmo durante o discurso do senador que lutou até ao fim pela nomeação democrata -, o segundo dia do encontro em Filadélfia foi mais calmo. Numa mostra de união, o próprio Sanders - que já na véspera pedira aos apoiantes para pararem de gritar: "É fácil vaiar, difícil será olhar os nossos filhos nos olhos se vivermos uma presidência Trump" - interrompeu a votação dos delegados para pedir que Hillary fosse nomeada candidata por aclamação.

Antes disso, o senador lutou para conter as lágrimas quando o irmão Larry, delegado pelos Democratas no Estrangeiro, votou nele, garantindo que os pais, que "não tiveram uma vida fácil e morreram jovens [...], estariam muito orgulhosos do seu filho e do que ele conseguiu".

Hollywood também esteve representada na convenção, com a atriz Meryl Streep a lembrar que para ser a primeira mulher a fazer seja o que for é preciso "coragem e graça". As também atrizes Lena Dunham e America Ferrara surgiram juntas num ataque a Trump. A primeira lembrou que segundo o republicano o seu corpo "vale para aí um dois", enquanto a segunda, a eterna Betty Feia da série, lembrou que para o milionário ela é "uma violadora". E quando Dunham lhe lembra "Mas tu nem és mexicana [aos quais Trump chamou "violadores e traficantes"], Ferrara respondeu: "Obama também não é queniano e isso nunca travou Trump!"

Derrotar Trump é precisamente a tarefa em que Hillary tem agora de se concentrar. Com a nomeação no bolso e três meses para as presidenciais, a ex-primeira-dama precisa de limpar a má imagem que continua a ter junto dos americanos. A última sondagem da Reuters/Ipsos mostra que 55% dos americanos têm opinião negativa em relação a Hillary. Mesmo assim menos do que os que têm má opinião de Trump - 61%. O mesmo estudo mostra que 59% dos inquiridos consideram que a mulher que foi secretária de Estado de Obama (depois de perder para ele a nomeação democrata em 2008) "não é honesta nem de confiança".

"Ela sabe que tem de trabalhar para ganhar a confiança das pessoas", confessou à Reuters Jennifer Palmieri, diretora de comunicação de Hillary. "E também percebe que não há uma fórmula mágica para ganhar a confiança de um momento para o outro", acrescentou.

Habituada a estar na mira da opinião pública, Hillary tem sido atacada pela sua gestão do ataque ao consulado americano em Bengazi, na Líbia, em 2012, ou devido ao uso do e-mail pessoal quando era secretária de Estado (entre 2009 e 2013). Apelidando-a de "Hillary corrupta", Trump arrancou gritos de "Prendam-na!" à audiência da convenção republicana que decorreu na semana passada em Cleveland.

Ultrapassada por Trump nas sondagens - o último estudo Reuters/Ipsos dá-lhe 37% das intenções de voto, face aos 39% do republicano -, Hillary precisa de jogar com o facto de o magnata ter pior imagem do que ela. E é o que faz num anúncio no qual se vê Trump a chamar "violadores e traficantes" aos mexicanos e a gozar com um jornalista deficiente. Resta saber se chega para vencer em novembro e continuar a fazer história ao tornar-se a primeira mulher presidente dos EUA.

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