Apesar do recuo de Macron, porque é que os "coletes amarelos" voltaram a sair à rua?

É a França rural e pobre que protesta. Fartos de pagar impostos, franceses querem melhores salários e menos precariedade no emprego.

O Governo francês recuou em toda a linha para travar os protestos dos "coletes amarelos", dirigentes deste movimento quase inorgânico apelaram ao fim dos protestos, mas nem assim conseguiram evitar que este sábado, por todo o país - mas sobretudo na capital, Paris -, os manifestantes saíssem à rua.

As palavras de ordem repetem-se, a desconfiança em relação a Emmanuel Macron permanece. As suas reivindicações são hoje mais amplas: fartos de pagar impostos, os "coletes amarelos" querem melhores salários e menos precariedade no emprego.

O Presidente francês não se limitou a suspender o aumento da taxa dos combustíveis. Achou que as pessoas considerariam uma "trafulhice" que se limitasse a suspender a medida do executivo. Mas quem sai à rua vê em Macron alguém que vive alheado da realidade quotidiana dos franceses. "Quem semeia a miséria, colhe a cólera", lia-se numa barricada.

A reportagem do jornal Libération dava conta de que os manifestantes ficaram pela praça da Bastilha apenas uma hora. Dali partiram para os Campos Elísios um pouco ao acaso e conforme as barragens policiais. "Não há ninguém aqui de Paris?", perguntou um homem na casa dos 30 anos. "Não, é a França do campo pobre que está aqui", replicou uma jovem.

Mickaël, que trabalha há 18 anos no centro técnico de Lardy, no departamento de Essone, na região de Île-de-France, hesitou em juntar-se inicialmente ao movimento. Aos protestos contra a taxa de combustíveis somou-se a luta por melhores salários. "Se tivesse o dinheiro, não me incomodaria pagar o combustível a 1,70 euros por litro." E contra a precariedade no emprego: metade dos 2500 funcionários de centro técnico da Renault são subcontratados, explica Mickaël ao Libération.

É o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, que está na linha da frente, de acordo com o jornal Le Monde, com Macron a anunciar uma intervenção apenas para segunda-feira. "O Presidente não quer atirar lenha para a fogueira", explicou o presidente da Assembleia Nacional, Richard Ferrand.

Afinal, Macron (que permanece em clausura no Eliseu, o palácio presidencial) é um dos alvos dos manifestantes - e uma das reivindicações dos "coletes amarelos" passa pela sua demissão. "Macron démission", é uma das palavras que se repete este sábado um pouco por toda a França. O presidente é acusado de ser o "presidente dos ricos", depois de ter acabado com o imposto sobre as grandes fortunas, de fazer a reforma do sistema de pensões e cortar nos gastos públicos. Para a classe média guardou o aumento dos combustíveis.

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