Antigos presidentes são protagonistas da eleição

Além de Lula, Collor é candidato, Dilma pode concorrer ao Congresso e Cardoso e Sarney influenciam os seus partidos.

"As eleições de 2018 estão cada vez com mais cara de 1989", comentou a colunista da GloboNews Eliane Cantanhêde, na sequência do anúncio na semana passada da candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência da República na votação de 7 de outubro, pelo modesto Partido Trabalhista Cristão. Além do passo surpreendente de Collor, que naquele ano se tornou o mais jovem presidente do continente americano da história, aos 40, e agora, aos 68, quer ser novamente protagonista, outros antigos chefes de Estado têm influenciado os meses que antecedem o imprevisível sufrágio de daqui a nove meses.

Desde logo, claro, Lula da Silva, que perdeu à segunda volta para Collor em 1989 e hoje, 29 anos depois, é dado por todas as sondagens como grande favorito das presidenciais. A candidatura do líder histórico do Partido dos Trabalhadores (PT), colocada em causa pelos tribunais por causa do suposto envolvimento do velho sindicalista no escândalo da Operação Lava-Jato, é o facto que tem o condão de pode mudar tudo no cenário politico brasileiro a curto e médio prazos. Caso não possa ser candidato, Lula abre caminho a forças de centro-direita, como o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), e de direita, como o Movimento da Democracia Brasileira (MDB).

Nesses partidos, as suas respetivas father figures, Fernando Henrique Cardoso, de 86 anos, e José Sarney, de 87, outros dois antigos presidentes do Brasil, têm tentado no limite dos possíveis influenciar as atuais eleições. Sarney, que já provou ter o poder de vetar nomes e nomear aliados nos bastidores do executivo do atual presidente Michel Temer, também do MDB, será ouvido na hora da escolha definitiva de um candidato da área governamental. Tanto Henrique Meirelles, ministro das Finanças, como Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, sabem que as suas pretensões de concorrer em outubro ganham força se tiverem a bênção de Sarney, ainda poderoso no executivo e também no legislativo do país.

Cardoso, por sua vez, sabe que meia palavra sua deixa o PSDB, de que é fundador, em alvoroço. Foi o que sucedeu quando na viragem do ano jogou um balde de água fria no governador de São Paulo Geraldo Alckmin, o mais que provável candidato à presidência pelo seu partido. "Se houver alguém com mais capacidade de juntar, que prove ter essa capacidade, e tenha princípios próximos aos nossos, devemos apoiar essa pessoa", afirmou em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, a propósito dos números pouco significativos de Alckmin nas sondagens. Cardoso, que governou o Brasil de 1995 a 2002, já havia baralhado as contas ao lançar o nome de Luciano Huck, popular apresentador de televisão, como presidenciável, no contexto do aparecimento de um nome de fora da desmoralizada classe política do Brasil.

Mais discreta mas ainda assim participativa, Dilma Rousseff tem sido a defensora número um de Lula ao longo do processo em tribunal do seu padrinho político. Quer ao seu lado nos palanques ou em entrevistas a grandes jornais estrangeiros, a chefe de Estado derrubada em 2016 vem dizendo que Lula é um injustiçado e que a sua condenação é o segundo ato de um golpe iniciado com o seu próprio impeachment. Natural de Minas Gerais mas com carreira política no Rio Grande do Sul, Dilma pode ainda concorrer às eleições de Outubro como candidata a uma vaga no senado no pelo PT.

Outro inquilino do Planalto em evidência é, naturalmente, o atual presidente, Michel Temer, que já confidenciou a colaboradores não excluir uma candidatura em outubro, apesar de dada a sua impopularidade, esse cenário se revelar, por ora, irreal. Mas o avanço do ainda mais impopular Collor até há duas semanas também era dado como irreal.

São Paulo

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