Antigo romance põe em causa hipótese de reeleição de Morales

Eleitores votam hoje em referendo uma alteração constitucional que permitirá ao presidente candidatar-se a mais um mandato. Escândalo do zapatazo deixa bolivianos divididos.

O caso tem quase dez anos, mas a revelação foi como uma verdadeira "sapatada" nas intenções do presidente da Bolívia de se candidatar a novo mandato em 2019. Evo Morales foi acusado de beneficiar uma ex-namorada e a empresa chinesa para a qual ela trabalha, que tem contratos milionários com o Estado. Gabriela Zapata é o nome da jovem, que teria 21 anos aquando dos acontecimentos e com quem o presidente chegou a ter um filho (que morreu em circunstâncias não reveladas). E o escândalo do zapatazo juntou-se a outras suspeitas de corrupção que atingem o executivo.

Hoje, 6,5 milhões de bolivianos votam em referendo a alteração do artigo 168 da Constituição, que pode permitir a Morales candidatar-se a um quarto mandato consecutivo em 2019 e governar até 2025, quando se assinala o bicentenário da independência. Uma sondagem Mori, publicada no jornal boliviano El Deber, aponta para um empate a 40% entre o sim e o não, havendo 18% de indecisos num referendo que se transformou num plebiscito ao presidente.

No último ato de campanha, em Santa Cruz, Morales acusou a oposição de ter feito uma campanha baseada na "mentira" e no "insulto". No passado, falara em conspiração. Ciente do impacto que o zapatazo está a ter, o presidente, de 56 anos, voltou a negar ter favorecido a empresa de engenharia Camce, onde trabalha a ex-namorada. As acusações foram feitas por um jornalista, que mostrou também a certidão de nascimento do filho do casal.

Foi em 2005, ano em que seria eleito presidente, que o índio aymara conheceu Gabriela Zapata, que fazia parte da juventude do Movimento para o Socialismo (MAS) e agora está no centro da polémica. "Lamento muito falar deste tema, sinto que é algo pessoal, familiar, privado, mas não tenho por que mentir ao povo boliviano", disse o ex-líder sindical cocalero (produtor de folha de coca), revelando que a relação acabou em 2007, depois de o filho ter morrido. Sobre esse tema, Zapata não falou aos jornalistas, negando apenas ter sido favorecida.

Campanha de medo

"O povo está com o sim e o império está com o não", disse Morales no fecho da campanha, marcada pelo discurso do medo. "Com Evo vamos bem", era um dos lemas dos seus apoiantes, com o presidente a ser apresentado como o único que pode dar continuidade ao projeto boliviano face a uma direita que quer festejar como na Venezuela e na Argentina e "privatizar os serviços públicos, aumentar os preços e despedir trabalhadores".

O principal argumento do sim é a década de bons resultados económicos, com crescimento médio do PIB superior a 5% - graças aos dividendos provenientes do gás natural (segundas maiores reservas da América Latina), do petróleo e do estanho (quarto maior produtor mundial). O objetivo da reforma constitucional é permitir que Morales e o vice-presidente Álvaro García Linera possam concorrer às eleições de 2019, à procura daquele que seria o seu quarto mandato consecutivo - o primeiro (2006-2010) não conta porque se considera que o país foi refundado em 2009 com a aprovação da nova Constituição. O presidente quer poder governar até 2025 e empreender a chamada "agenda patriótica".

Morales enfrenta o terceiro referendo em dez anos, tendo saído vitorioso dos outros dois. O primeiro, revogatório em 2008, serviu para reforçar o poder numa altura em que as regiões mais ricas procuravam a independência: venceu com 67,4%. Menos de um ano depois, os bolivianos aprovaram com 61,4% dos votos a nova Constituição, elaborada por uma Assembleia Constituinte na qual o MAS tinha a maioria.

Após uma década no poder, os números estão mais complicados para o presidente, cuja popularidade, cerca de 60%, já foi posta em causa nas regionais de 2015. Nelas, o MAS manteve-se como principal força política, mas perdeu os municípios que já foram seus bastiões (como El Alto ou Cochabamba) e os governos de La Paz ou Tarija.

Ainda antes de se conhecer a história da ex-namorada, o presidente já tinha visto alguns aliados envolvidos no escândalo do Fundo Indígena: inúmeros projetos que receberam milhões em ajuda do Estado mas nunca foram executados. Além da corrupção, os críticos questionam o estado da justiça e acusam o governo de gastar milhões em iniciativas que não eram imprescindíveis para o país (de um satélite ao museu de presentes oficiais que Morales construiu na sua cidade natal), em vez de investir no precário sistema de saúde e na educação. Acima de tudo, os opositores acham absurdo pensar-se que só Morales pode garantir o bem-estar do país.

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