Anna Gabriel pedirá asilo na Suíça se houver ordem de extradição

Antiga porta-voz parlamentar da CUP não vai hoje ao Supremo Tribunal, tendo optado por seguir o exemplo de Puigdemont

A Suíça não autoriza uma extradição por motivos políticos e é com base nesse pressuposto que Anna Gabriel, ex-porta-voz parlamentar da Candidatura de Unidade Popular (CUP), tomou a decisão de ficar em Genebra. Faltará assim à audiência desta manhã com o juiz Pablo Llarena, que investiga o processo independentista catalão no Supremo Tribunal. Segue o exemplo do ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont, que está em Bruxelas com quatro antigos membros do seu governo. Caso Espanha insista em pedir a extradição, Gabriel pedirá asilo político.

"Não irei a Madrid", era o título da entrevista à ex-deputada ao jornal suíço Le Temps, confirmando que não iria estar presente em tribunal. "Como não terei um processo justo no meu país, procurei um em que possa proteger os meus direitos", acrescentou. Em declarações à televisão suíça RTS, em francês, falou numa "perseguição política" e na falta de imparcialidade dos tribunais espanhóis. "Estou a ser processada pela minha atividade política e os media do governo já me condenaram", alegou Gabriel.

As acusações de rebelião e sedição (pelos quais Puigdemont responde) não estão explicitamente no código penal suíço - tal como não estão no belga. Na Suíça existem contudo "crimes contra o Estado", mas tem de ficar provado o uso de violência. Se no caso de Puigdemont o juiz pode voltar a pedir uma ordem de detenção europeia (a que tinha sido pedida foi suspensa, mas pode ser retomada quando a acusação estiver concluída), no caso de Gabriel a extradição seria ao abrigo do tratado que existe entre os dois países, assinado em 1884. A Suíça não faz parte da União Europeia, mas pertence ao espaço Schengen, pelo que há liberdade de circulação. Contudo, a extradição não é possível por motivos políticos.

"Quando vi o destino de alguns dos meus colegas, que estão na prisão desde dezembro, dei-me conta de que tinha de ir-me embora", afirmou a ex-deputada na entrevista, dizendo que será mais útil para o movimento independentista na Suíça do que "atrás das grades". Anna Gabriel, de 42 anos, planeia voltar a dar aulas de Direito (era professora na Universidade de Barcelona). "Se não puder porque há uma ordem de extradição, pedirei asilo político", afirmou, indicando que manterá também a pressão internacional sobre Espanha.

O juiz do Supremo Tribunal queria ouvir a ex-porta-voz da CUP (partido antissistema) ao abrigo da investigação sobre o referendo de 1 de outubro e consequente declaração unilateral de independência. Os outros cinco dirigentes independentistas que Llarena ouviu nesta nova ronda de audiências ficaram todos em liberdade, sendo que apenas Marta Rovira, número dois da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), terá de pagar uma fiança de 60 mil euros.

Ontem, o antigo presidente da Generalitat Artur Mas disse que tinha sido a favor da convocação de eleições antecipadas e não da declaração de independência, que ocorreu a 27 de outubro. Considerando que esta foi "simbólica", explicou que Puigdemont estava também inclinado a optar por novas eleições, mas mudou de opinião. Llarena, que investiga agora a existência de um "comité estratégico" para preparar a independência, ouviu também a ex-presidente da Associação de Municípios Independentistas Neus Lloveras.

Reagindo à decisão de Anna Gabriel, a líder do Ciudadanos na Catalunha, Inés Arrimadas, alegou que "a CUP e Puigdemont têm o mesmo modus operandi para fugir à justiça". O socialista Miquel Iceta lembrou que "todos os cidadãos têm direitos e deveres e, quando somos chamados pela justiça, temos de ir. Ninguém está acima da lei". Já o porta-voz parlamentar do Partido Popular na Catalunha, Alejandro Fernández, disse que a fuga para a Suíça demonstra que "não eram tão corajosos como eles próprios achavam".

Por seu lado, o líder do Catalunya en Comú-Podem no Parlamento catalão, Xavier Domènech, lamentou que a ex-deputada da CUP "se encontre nesta situação e tenha de estar um tempo fora de casa". E considerou que "politicamente" este é mais um exemplo de que se vive "uma situação extraordinária" e uma "situação gravíssima" na Catalunha.

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