Andaluzia contra despedidas de solteiro e turismo de bebedeira

Habitantes, polícia e proprietários de hotéis e hostels estão a ficar fartos deste tipo de eventos organizados.

Grupos de homens e mulheres, vestidos com roupas ou adereços histriónicos, normalmente sob o feito do álcool, aos gritos na rua, nos apartamentos que alugam, provocando o descontentamento dos vizinhos, tornando-se uma verdadeira dor de cabeça para a polícia.

É com este tipo de cenário que as autoridades locais de Málaga, Granada e Córdoba, na Andaluzia, querem acabar. Sendo que as de Tarifa e Conil de la Frontera, na mesma comunidade autonómica espanhola, já tomaram medidas nesse sentido, conta uma reportagem do El PaÍs.

O presidente da Câmara de Málaga, Francisco de la Torre, do Partido Popular, anunciou esta semana mais presença policial para controlar as despedidas de solteiro, que ultrapassam muitas vezes os limites. Em Granada, a vereadora Ana Muñoz, do PSOE, convocou uma reunião para acabar com o que considera ser "uma escapatória para barbaridades que esta cidade não tem porque suportar". Em Córdoba, são os proprietários de hostels e hotéis que mais têm reclamado que as autoridades adotem medidas e avisaram já que vão recusar este tipo de reservas.

"Vamos trabalhar com os restantes setores e estudar outros modelos para adotar medidas necessárias para acabar com este tipo de turismo. Este tipo de turismo de bebedeira prejudica a imagem da cidade e causa muitos problemas de convivência entre os vizinhos e os outros visitantes", declarou a este jornal espanhol a responsável de Granada Ana Muñoz.

Em Alhambra, uma das principais atrações de Granada, as despedidas de solteiro começaram há quatro ou cinco anos e, atualmente, durante um fim de semana podem coincidir entre 15 e 20. Antes os grupos vinham por sua conta. Agora vêm com tudo organizado por empresas. Começam a vaguear pelas ruas logo na sexta-feira à tarde.

As empresas que organizam este tipo de eventos defendem-se das críticas: "Nós fazemos um controlo dos grupos desde que nos contratam e chegam, à sexta-feira, através de AVE (TGV) até que se vão embora", garantiu, ao El País, Sergio Barrientos, responsável da Eclipse, uma empresa que organiza este tipo de despedidas de solteiro em Sevilha.

"O arrastar das malas pelas calçadas transformou-se no som que mais ouço ao fim de semana", conta uma habitante de Málaga ao diário espanhol, comentando a entrada e saída permanente de turistas em apartamentos alugados. Em Granada, explicou o porta-voz da polícia local, Jacinto Sánchez, o assunto assume tal importância que as autoridades dedicam "a patrulha, desde quinta-feira ao meio dia, até sábado à noite" quase exclusivamente a ele.

Em Conil de la Frontera, o presidente da Câmara, Juan Bermúdez, da Esquerda Unida, foi dos primeiros a impor regras a estas despedidas de solteiro em 2015. Ordenou maior vigilância nas ruas e nos estabelecimentos. Ao fim de um ano foi redigida uma ordem de Convivência Cidadã, que entrou em vigor este verão. No primeiro fim de semana da sua aplicação, entre os dias 9 e 10 de junho, foram sancionadas 30 pessoas que participavam neste tipo de despedidas, num valor que chegou até aos 3000 euros.

Tarifa, zona ventosa muito procurada por praticantes de kitesurf, por exemplo, também já se colocou um ponto final a este tipo de turismo. A autarquia apostou numa aplicação mais severa da norma municipal que existia sobre ruído e perturbação da ordem pública. Alguns negócios foram obrigados a alterar as suas licenças, outros viram recusadas licenças de ocupação da via pública, como as de bicicletas coletivas em que os ocupantes vão pedalando pela cidade ao mesmo tempo em que consomem álcool. O ano passado foram aplicadas em Tarifa 180 sanções por alteração da ordem pública.

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