Viúvas de negro: o novo esquema das maras para ganhar dinheiro

Mulheres são ameaçadas e obrigadas pelos gangues a casar com homens que não conhecem. Eles são depois assassinados para elas poderem cobrar o dinheiro do seguro de vida

Susana Salvador
Pedro Benjamin Rivas Zelaya, um dos líderes da Mara Salvatrucha, apresentado aos media após ter sido detido na Guatemala© REUTERS/Jose Cabezas

Mónica (nome fictício) respondeu a um anúncio de emprego para fazer limpezas numa casa. Mas quando lá chegou descobriu que tinha caído nas mãos da Mara Salvatrucha, um dos gangues de El Salvador também conhecido como MS-13. Ameaçada de morte, foi obrigada a vestir-se de branco e ir até um registo civil para casar com Melvin Reyes, que nunca tinha visto. Ele pagara ao gangue pela oportunidade de casar com uma mulher que acreditava ter a cidadania norte-americana, convencido de que o casamento (e o seguro de vida que lhe tinham pedido para fazer) lhe garantia o visto necessário para poder imigrar para os EUA. Só que meses depois, Reyes foi assassinado e Mónica obrigada a cobrar o dinheiro do seguro.

O esquema complexo foi batizado pelas autoridades de El Salvador de "viúvas de negro". E além de Mónica, cujo caso remonta a 2016, há provas de outra mulher que foi obrigada a fazer o mesmo em 2013 e 2014. "Esta é a primeira estrutura com estas características, não encontrámos mais ligações, mas isso não quer dizer que não haja mais. À medida que este caso for conhecido e que avance a fase de instrução, esperamos que as pessoas denunciem", disse a procuradora do caso, citada pela imprensa local, falando noutros casos semelhantes. Até agora, as autoridades só encontraram provas deste tipo de esquema na Mara Salvatrucha.

O MS-13 tem a sua origem nas ruas de Los Angeles nos anos 1980, quando muitos salvadorenhos fugiram da guerra civil no país. A marginalização, a delinquência e os conflitos com os gangues norte-americanos fizeram que muitos jovens se unissem para se defender. Como alguns já tinham experiência paramilitar ou de guerrilha, as maras ficaram famosas pela sua crueldade e insensibilidade à violência. À medida que cometiam crimes e eram deportados de volta para a sua terra natal, os seus membros começavam depois a recrutar em "casa".

Segundo as estimativas, o MS-13 terá atualmente cerca de 70 mil membros, 85% deles em El Salvador, Guatemala, Honduras e México (onde são aliados de cartéis como o de Sinaloa). O resto vive nos EUA, Canadá e Espanha. Em outubro de 2012, o Departamento do Tesouro norte-americano considerou a Mara Salvatrucha uma "organização criminosa transnacional". Os seus membros cobrem-se de tatuagens (alguns até o rosto) e têm uma linguagem gestual própria.

El Salvador é um dos países mais perigosos do mundo, de tal maneira que a 11 de janeiro foi notícia (até a nível internacional) o facto de não ter havido um único homicídio. Foi o primeiro em dois anos. Em 2016, a taxa de homicídios foi de 81,2 por mil habitantes, uma melhoria em relação ao ano anterior, de 104 - o mais elevado de um país que não está em guerra. O gangue ganha dinheiro através da extorsão. O esquema das "viúvas de negro" é mais complexo do que o visto até agora.

A situação só foi descoberta depois de Mónica ter conseguido escapar da casa onde era mantida refém. A vítima denunciou então à polícia como tinha sido atraída por Esmeralda Acosta, que lhe tinha prometido pagar 250 dólares mensais por um emprego. Mas que depois a ameaçou de morte se ela não cumprisse as ordens que lhe dava - entre elas, casar com Reyes. Depois do casamento, Mónica voltou à casa onde era mantida em cativeiro, tendo sido obrigada por duas vezes a ir visitar a família do marido (e a sua). Tudo para fingir serem um casal feliz e anunciar que em breve iriam para os EUA.

Dias depois de uma dessas visitas, Reyes foi assassinado por membros do gangue e Acosta obrigou Mónica a denunciar o seu assassínio à polícia e exigir que lhe entregassem provas de que haveria uma investigação. Com esse documento, foi obrigada a ir a um banco para receber o seguro de vida. Ao todo, entregou 15 mil dólares à Mara Salvatrucha. Apesar de no caso de Mónica haver duas vítimas - ela e o marido, as autoridades não descartam o facto de as maras usarem as suas próprias mulheres para manterem o esquema em funcionamento.

Depois de denunciar o caso, Mónica levou a polícia à casa onde tinha estado presa e foram detidas três mulheres, entretanto acusadas de tráfico de pessoas, conspiração para cometer homicídio, burla e associação criminosa. Foi ainda encontrada uma menor de idade e a outra vítima, além de quatro mil dólares em dinheiro vivo. Esmeralda Acosta encontra-se em fuga, assim como outras quatro pessoas - entre as quais os membros do gangue responsáveis pelo homicídio de Reyes.