População reclama nas ruas pernil para passagem de ano e culpa Maduro

As explicações do presidente, culpando Portugal e os EUA, não convencem muitos venezuelanos

Ricardo Simões Ferreira
Protestos em Caracas© EPA/MIGUEL GUTIERREZ

Os venezuelanos voltaram esta quinta-feira a protestar contra o Governo do Presidente Nicolás Maduro, pelo incumprimento da promessa de distribuir pernil de porco na época do Natal, reclamando que também não terão aquele e outros produtos no fim de ano.

Os protestos que decorrem na Avenida Vitória de Caracas e na estrada que liga a capital a El Junquito (sul) têm lugar depois de, quinta-feira, o Presidente Nicolás Maduro, ter acusado os Estados Unidos e Portugal de sabotarem a importação de pernil de porco para o Natal.

"Não foi só o pernil, também outros produtos, que não chegaram. Prometeram-nos as bolsas CLAP (alimentos a preços subsidiados) mas só chegaram a alguns sítios. Estamos necessitando dessas coisas porque tudo está tão caro que não podemos comprar. Comprando 1,5 quilogramas de porco ficamos sem salário e não temos com que manter a família", explicou uma manifestante à Agência Lusa.

Entre dezenas de manifestantes, Yohandra Ocanto, 25 anos, olhava fixamente um grupo de funcionários da Polícia Nacional Bolívariana que se encontravam a escassos 200 metros e a outros cidadãos, que com troncos de árvore e lixo bloquearam a Avenida Vitória, perto de El Cementério, um populoso bairro pobre venezuelano.

"Imagine quem tem três ou quatro crianças para alimentar o que está a sofrer" exclamou.

Cristian Velásquez, 35 anos, juntou-se aos protesto porque "os políticos vivem outra realidade", diferente da dos venezuelanos que "passam por dificuldades para conseguir comer todos os dias".

"Estamos dececionados. Não houve pernil no Natal, mas também não haverá para a passagem de ano. Há uns 15 dias passaram pedindo para votar, prometeram bolsas CLAP e já sabiam que não havia suficientes (para distribuir)", disse.

Segundo este venezuelano e relativamente às acusações feitas por Maduro, "Portugal têm-se mantido à margem dos conflitos que temos tido e tem feito acordos, obras, habitações sociais e enviado alimentos" pelo que responsabilizou o Governo da Venezuela pela falta de alimentos, entre eles o pernil porque havia "problemas já de antes e sabiam".

"Todos temos um amigo português ou conhecemos alguém que tem. Os lusitanos, aqui, são muitos e muitas vezes é o português do 'abastos' (mercearia) que nos fia, quando não temos dinheiros suficiente e quando não cobramos a quinzena (salário quinzenal)", frisou.

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou Portugal, quinta-feira, de sabotar a importação de pernil de porco, depois de Caracas ter feito um plano de importação e acertado os pagamentos.

Segundo Nicolás Maduro os barcos que transportavam o pernil foram perseguidos e as contas bancárias foram bloqueadas.

Por outro lado o vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, o partido do Governo), Diosdado Cabello, acusou hoje os portugueses de se terem assustado, pressionados pelos norte-americanos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros português rejeitou a acusação de sabotagem à venda de carne de porco à Venezuela, frisando que Portugal é uma economia de mercado em que o governo não interfere nas relações entre empresas.

"Portugal é uma economia de mercado, o governo não participa nas exportações que as empresas portuguesas contratam com empresas estrangeiras e, portanto, não há lugar a nenhuma espécie de interferência política, muito menos a qualquer intento de sabotagem do governo português", disse Augusto Santos Silva.

O ministro disse estar ainda a recolher informações sobre o caso, admitindo ter havido "um problema comercial", mas disse dispor já de dados que apontam para que a carne tenha sido de facto exportada tendo falhado possivelmente a sua distribuição na Venezuela.