Trump recupera (um pouco) a imagem com o Estado da União

Discurso presidencial no Congresso agradou à maioria dos norte-americanos. Um balão de oxigénio para quem apresenta níveis recorde de impopularidade

César Avó
© Reuters/Leah Millis

O terceiro discurso mais longo de sempre do Estado da União, com 80 minutos, a seguir aos dois de Bill Clinton - e cerca de 70 ovações a interrompê-lo -, valeu a Donald Trump uma impressão favorável dos americanos. Uma sondagem da CNN/SSRS, feita logo após o presidente dos EUA se ter dirigido aos congressistas, revelou que 48% das pessoas reagiram de forma "muito positiva" e 22% "um pouco positiva". Outra, da autoria da CBS/YouGov, mostra 75% dos espectadores agradados com o discurso.

Boas notícias para quem fez o primeiro discurso do Estado da União com uma percentagem recorde de impopularidade, à volta de 40%. O mais recente estudo, da Monmouth University, finalizado antes do Estado da União, mostrou uma subida de 32%, em dezembro, para 42% de aprovação. A reforma fiscal terá estado na origem da inversão da tendência de queda da popularidade.

"Deu uma volta de consagração ao falar sobre a economia americana e sobre os baixos níveis de desemprego enquanto os salários aumentam. O tom foi refrescantemente conciliador na maioria das observações", comentou à BBC o antigo conselheiro de George W. Bush Ron Christie. "Se pudesse fazer este discurso todos os dias durante o resto do ano, as eleições intercalares não seriam um problema", disse Alex Conant, ex-assessor do senador republicano Marco Rubio. Mas isso não vai acontecer e, como recordou à Reuters John Geer, especialista em opinião pública da Universidade Vanderbilt, o efeito deve desvanecer-se em breve. "Dadas as expectativas, esteve bem. Mas os seus tuítes têm tanta cobertura como os discursos, portanto provavelmente irá anular os ganhos que possa ter feito em 48 horas."

Como esperado, a mensagem de Trump esteve centrada em temas internos, sobre uma América "segura, forte e orgulhosa". Tranquilizou os apoiantes ao mostrar-se duro no que respeita à imigração, à política de segurança, aos acordos comerciais e às relações internacionais, e à defesa do hino nacional (em alusão ao boicote dos jogadores de futebol americano). E tentou chegar junto dos restantes ao apelar à unidade, ao propor um acordo com os democratas que envolva os dreamers (imigrantes que entraram no país em crianças) e o muro; uma parceria público-privada de 1,5 biliões de dólares em obras de infraestruturas; ao prometer uma luta "mais dura" aos traficantes de opiáceos e a dar tratamento de desintoxicação a quem necessite; e a reformar o sistema prisional.

No Estado da União, Donald Trump indicou que Guantánamo é uma prisão para manter nos mesmos moldes, revertendo a ordem de encerramento - nunca concretizada - de Barack Obama. A ordem executiva foi anunciada no discurso, ao declarar que instruiu o secretário de Defesa James Mattis para "rever a política de detenção militar e para manter abertas as instalações prisionais da baía de Guantánamo". No estabelecimento em terras cubanas permanecem 41 dos 780 suspeitos de terrorismo presos desde a sua abertura, em 2002. Não foi revelado se há planos para transferir mais pessoas para o centro de detenção de Guantánamo.