Três mulheres Nobel da Paz acusam líder birmanesa de genocídio

Aung San Suu Kyi,galardoada com o prémio em 1991, é considerada responsável pelos crimes contra os rohingya

Paula Freitas Ferreira
Crianças muçulmanas junto de casas destruídas no estado de Rakhine onde se concentra a população rohingya © EPA

Três laureadas com o Nobel da Paz acusaram a líder birmanesa Aung San Suu Kyi e o exército da Birmânia (Myanmar) de genocídio pelo papel que desempenharam na violência que forçou milhares de rohingya a fugir para Bangladesh.

Hoje, durante uma conferência de imprensa em Daca, as três mulheres galardoadas com o prémio Nobel da Paz disseram que a também vencedora desde mesmo prémio, Aung San Suu Kyi, não pode deixar de ser responsabilizada pelos acontecimentos ocorridos com os rohingya.

As três mulheres começaram, no sábado passado, uma visita ao Bangladesh, onde se vão encontrar com mulheres da minoria rohingya que foram violadas e torturadas por soldados birmaneses.

Segundo a Iniciativa das Mulheres Nobel, plataforma criada em 2006 e que junta seis mulheres laureadas com o Nobel da Paz, a delegação, composta pela iraniana Shirin Ebadi, a iemenita Tawakkol Karman e a norte-irlandesa Mairead Maguire, teve acesso aos campos de refugiados onde vivem cerca de 700 mil civis da minoria rohingya, perseguida na Birmânia.

Tawakkol Karman apelou hoje a Aung San Suu Kyi para "acordar" ou para "enfrentar a acusação".

Já Shirin Ebadi e Mairead Maguire prometeram trabalhar para levar os responsáveis pelos crimes à justiça.

O êxodo da minoria étnica e religiosa (os rohingya praticam a religião muçulmana num país maioritariamente budista) começou no final do mês de agosto do ano passado, durante a operação militar desencadeada pelo exército de Myanmar (antiga birmânia) contra o movimento rebelde Exército de Salvação do Estado Rohingya, que acusam de ser responsável por ataques contra postos militares e policiais.

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos considerou estar em curso uma "limpeza étnica", sublinhando que há indícios de genocídio contra a minoria muçulmana da Birmânia.

Cerca de 700 mil rohingya deixaram a Birmânia e estão agora a viver em campos de refugiados no vizinho Bangladesh, naquela que é considerada uma das crises humanitárias mais graves do início do século XXI.

A repatriação dos rohingya já deveria ter começado em janeiro, tal como foi acordado entre os dois países, após negociações decorridas em novembro de 2017, mas as autoridades do Bangladesh decidiram adiar o processo por falta de condições de segurança.

Também organizações humanitárias têm manifestado sérias dúvidas em relação às intenções do Governo birmanês e exigem condições adequadas para um repatriamento seguro.

A Birmânia não reconhece a minoria rohingya. Em 1982, retirou a nacionalidade birmanesa aos pertencentes a esta minoria e impôs restrições à sua liberdade de movimentos: não podem viajar ou casar sem autorização, nem têm acesso ao mercado de trabalho ou a serviços públicos como escolas e hospitais.