Todos contra Lula, incluindo os tribunais

Como o favorito pode ficar impedido de se candidatar, presidenciais brasileiras de 7 de outubro são ainda mais incertas do que de costume.

João Almeida Moreira
Nos últimos meses Lula tem percorrido o Brasil de norte a sul.© REUTERS/Ricardo Moraes

Às vésperas de 2014, os observadores tinham uma noção clara do que iria suceder nas eleições seguintes: Dilma Rousseff, do PT, ganharia a Aécio Neves, do PSDB, com maior ou menor dificuldade à segunda volta, e Eduardo Campos, do PSB, marcaria território na primeira. Afinal, Campos morreu num acidente aéreo dois meses antes da votação e Marina Silva concorreu no seu lugar. Dilma venceu, sim, mas por tão pouco que seria derrubada pelo próprio vice-presidente. E Aécio acabaria, como tantos outros políticos de elite, nas manchetes policiais. Na política do Brasil, diz-se, até o passado é imprevisível - quanto mais o futuro.

Dimitri Dimoulis, cientista político da Faculdade Getúlio Vargas, acrescenta, em conversa com o DN, outro elemento para dificultar as previsões para as presidenciais de 7 de outubro (com segunda volta a 28): "Em 2018 não se aplicará a denominada "lei do presidencialismo latino-americano", segundo a qual o presidente candidato ganha sempre". Como Michel Temer não deve concorrer, Dimoulis considera a "popularidade eleitoral de Lula da Silva o dado predominante da eleição". "A despeito das constantes acusações de corrupção e outros crimes na imprensa há anos, da sua condenação por tais crimes em primeira instância e da quase certeza de condenação em segunda, do afastamento de seu partido e de seus aliados do poder e do colapso organizacional e eleitoral do PT."

Mas, defende, "como os brasileiros não consideram relevantes para a sua decisão eleitoral as acusações de corrupção, considerando-as um mal inevitável da política, e como não há candidato que possa competir com Lula em termos de popularidade eleitoral e dificilmente surgirá um em alguns meses, se ele for considerado inelegível pela justiça eleitoral não podemos excluir que continue fazendo campanha e que seja mentor de um eventual substituto". Esse substituto pode ser Fernando Haddad ou Jaques Wagner, dois destacados quadros do PT, ou Ciro Gomes, do também de esquerda PDT.

E o atual segundo classificado nas sondagens, o militar na reserva Jair Bolsonaro, que tirou a extrema-direita brasileira do armário? Paulo Baía, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, não acredita no candidato pelo modesto Patriotas a longo prazo: "Julgo que Bolsonaro deixará de ser competitivo a partir de junho, quando as convenções dos grandes partidos confirmarem os seus candidatos; ele, pelo contrário, não tem uma estrutura partidária forte, nem tempo de antena suficiente para fazer frente aos concorrentes dos partidos tradicionais."

No Brasil, não há partido mais forte e tradicional que o PMDB (agora chamado MDB) de Temer. Porém, raramente avança com candidato próprio: "O grupo de Temer defende que deve haver algum candidato, do PMDB ou não, a defender o chamado legado do presidente, mas eu duvido que surja alguém com vontade de o fazer", diz Baía ao DN. "Aliás, acho que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, de centro-direita, vai defender a agenda do governo Temer sem no entanto defender a figura de Michel Temer." "O PMDB pode, porém, em vez de Alckmin, vir a apoiar o atual ministro das finanças Henrique Meirelles, do PSD."

Para Igor Gielow, grande repórter do jornal Folha de S. Paulo, uma figura do desacreditado governo Temer terá sempre dificuldades. "Meirelles quer ser presidente, mas não descolará, Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos Deputados] não quer e não descolaria de qualquer forma, por isso tudo indica que a gravidade levará o tal centro para Alckmin mas ainda estamos muito longe e a única coisa certa na política brasileira é a sua imprevisibilidade", disse ao DN.

Tendo em conta essa famosa imprevisibilidade, o colunista deixa no ar ainda a remota hipótese de surgir um outsider: "O momento do outsider perdeu-se um pouco, com a desistência do [comunicador da TV Globo] Luciano Huck, mas ele não descarta um regresso ao jogo lá mais para a frente. Porém, como as regras eleitorais conspiram todas contra os outsiders, felizmente, eu diria, a melhor aposta é em alguém do establishment apesar da Lava-Jato". Quem? Na política brasileira, ninguém pode prever.

São Paulo