Teste com Viagra corre mal e 11 recém-nascidos morrem. "As pessoas estão a ficar loucas com isto"

Lana Huf-Germain foi uma das 183 mulheres que participou no ensaio clínico. No seu caso tudo correu bem, mas não esquece o drama que outras mães estão a viver. "Somos nós que tomamos a decisão. Parece que ligámos o interruptor 'morto ou vivo'. A pessoa sente-se responsável por matar o seu filho"

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"Na ecografia da 20ª semana disseram-me que a minha filha era muito pequena e que precisávamos de ir para o hospital. Uma das primeiras coisas que ouvimos foi que estavam a fazer esta pesquisa e que podia ser benéfica para nós". Foi assim que Lana Huf-Germain tomou conhecimento do ensaio clínico holandês com Viagra que terminou após a morte de 11 bebés recém-nascidos.

Huf-Germain, de 38 anos, relata ao The Guardian o "turbilhão" de emoções que sentiu antes de decidir fazer parte do ensaio clínico, que queria estudar os efeitos da tomada de sildenafil, mais conhecido por Viagra, em grávidas, cujas placentas tinham um baixo desempenho. O objetivo era melhorar o crescimento dos bebés através deste medicamento que dilata os vasos sanguíneos. Mas a toma do comprimido por 183 grávidas provocou problemas pulmonares em alguns bebés.

"Estávamos a viver um turbilhão de emoções. Nem me consigo lembrar o que assinei", reconhece uma das mulheres que participou no estudo

A filha de Lana Huf-Germain nasceu prematura há dois anos. É agora uma menina saudável. A mãe foi uma das grávidas que aceitou participar no estudo holandês e afirma não se lembrar de ter sido informada no início do ensaio clínico sobre os possíveis riscos para a sua filha.

Depois de ter conhecimento do estudo, um médico explicou-lhe "como funcionava o Viagra e que [o estudo] parecia muito plausível". "Então nós dissemos: 'Sim, claro, vamos", recorda ao jornal britânico. "Estávamos a viver um turbilhão de emoções. Nem me consigo lembrar o que assinei", reconhece Huf-Germain. Ela e o marido só pensavam na filha que não estava a crescer como devia.

"Pensando em retrospectiva, somos nós que tomamos a decisão. Parece que ligámos o interruptor: morto ou vivo. É por isso que as pessoas estão furiosas. Você sente-se responsável por matar o seu filho"

Tudo correu bem no caso desta mãe, que não culpa os médicos. "Para ser justa, até onde eu sei, eles não sabiam dos riscos". Reconhece, no entanto, que "as pessoas estão ficar loucas com isto". Huf-Germain admite mesmo que o desfecho trágico deste ensaio clínico está a afetar psicologicamente a sua família, apesar de tudo ter corrido bem no seu caso. "Depois disto, o meu marido precisa de terapia".

Se esta mulher pode respirar de alívio, o mesmo não se pode dizer das grávidas - entre 10 a 15 participantes - que estão à espera de descobrir se os bebés que ainda não nasceram foram afetados pela toma de sildenafil. Estão a receber acompanhamento psicólogico, o mesmo está a acontecer às mulheres cujos filhos morreram.

"Pensando em retrospectiva, somos nós que tomamos a decisão. Parece que ligámos o interruptor: morto ou vivo. É por isso que as pessoas estão furiosas. Você sente-se responsável por matar o seu filho", diz Huf-Germain.

O estudo holandês, conduzido pelo Centro Médico da Académico de Amesterdão (UMC), começou em 2015, envolveu 11 hospitais e 183 grávidas. Estava previsto que o ensaio decorresse até 2020, mas terminou após a morte de 11 recém-nascidos.

"Queríamos mostrar que esta é uma forma eficiente de promover o crescimento do bebé mas o oposto aconteceu. Estou chocado. A última coisa que queremos é prejudicar os pacientes", afirmou o ginecologista que liderou o estudo, Wessel Ganzevoort, em entrevista ao diário holandês De Volkskrant.