Theresa May diz que suspeitos de ataque químico são agentes russos

O Kremlin fala em "manipulação de informação". A primeira-ministra britânica, na primeira reação à nomeação de suspeitos, começou por afirmar ainda que a operação foi autorizada pelos serviços secretos russos

Rui Salvador
© EPA/WILL OLIVER

Os dois russos suspeitos de terem usado o agente neurotóxico Novichok contra Sergei e Julia Skripal em março no Reino Unido pertencem à agência de informações russa, GRU, revelou esta quarta-feira a primeira-ministra britânica, Theresa May.

Numa declaração na Câmara dos Comuns, a chefe do Governo indicou que as agências de segurança e informações britânicas realizaram suas próprias investigações sobre a organização responsável pelo ataque.

"Com base neste trabalho, posso hoje dizer à Câmara que, com base num conjunto de informações, o governo concluiu que os dois indivíduos identificados pela polícia e pela CPS [Procuradoria da Coroa] são agentes do Serviço de Inteligência Militar da Rússia, também conhecido como o GRU", indicou.

A GRU, vincou, "é uma organização altamente disciplinada, com uma cadeia de comando bem estabelecida. Então esta não foi uma operação não autorizada. Quase certamente também foi aprovado fora da GRU, a um nível sénior do Estado russo".

Dois cidadãos russos, Alexander Petrov e Ruslan Boshirov, foram hoje oficialmente identificados pelas autoridades britânicas como suspeitos de terem usado o agente neurotóxico 'novichok' contra Sergei e Julia Skripal em março, em Salisbury, no Reino Unido.

A Procuradoria da Coroa [Crown Prosecution Service] considera que existem provas suficientes para acusá-los de conspiração de homicídio de Sergei Skripal e tentativa de homicídio de Sergei e Yulia Skripal e do agente de polícia Nick Bailey.

São ainda considerados suspeitos do uso e posse de substâncias químicas ilegais, cuja origem as autoridades atribuíram à Rússia, onde o agente neurotóxico foi desenvolvido no âmbito de um programa militar nos anos 1970.

O anúncio de hoje é o resultado de uma investigação pela Unidade de Polícia de Contraterrorismo ao ataque registado a 04 de março em Salisbury, no sul de Inglaterra, que entregou o dossiê à procuradoria para avaliar a possibilidade de serem iniciados procedimentos criminais.

As autoridades indicaram ainda que não vão pedir a extradição dos dois suspeitos a Moscovo porque a constituição russa não permite a extradição de seus próprios nacionais e porque recusou pedidos de extradição em situações anteriores.

"No entanto, obtivemos um mandado de detenção europeu, o que significa que, se um dos homens viajar para um país onde o mandado de detenção europeu for válido, ele será preso e será extraditado para responder a essas acusações, para as quais não há prazo de prescrição", vincou a Procuradoria.

Sergei Skripal, um britânico de origem russa com 66 anos, é um antigo agente russo que colaborou com os serviços secretos britânicos.

Juntamente com a filha de 33 anos, Yulia, de nacionalidade russa, foram encontrados semi-inconscientes num banco de jardim, tendo-se apurado mais tarde que tinham sido envenenados com um agente neurotóxico de nível militar.

Depois de estarem hospitalizados em estado grave durante semanas, ambos tiveram alta, tal como o agente Nick Bailey, que também tinha sido contaminado pelo agente chamado 'novichok', cuja origem as autoridades britânicas atribuíram à Rússia.

Na investigação sobre o ataque aos Skripal foi incluída a investigação por homicídio em 08 de julho da britânica Dawn Sturgess, de 44 anos, da localidade vizinha de Amesbury, também foi devido aos efeitos da substância química novichok.

A mulher foi contaminada após manusear um recipiente que continha o agente neurotóxico encontrado num local público, e que também afetou, mas de forma menos grave, o companheiro Charlie Rowley, incidentes que a polícia está convencida estão relacionados.

"Nós não acreditamos que Dawn e Charlie foram visados deliberadamente, mas tornaram-se vítimas como resultado da imprudência com que um agente nervoso tão tóxico foi descartado", acusou o comissário adjunto Neil Basu, responsável pela unidade de combate ao terrorismo.

Peritos da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) confirmaram que a substância era 'novichok' e que o mesmo tipo foi usado nas duas ocasiões.

As autoridades britânicas atribuíram a Moscovo a responsabilidade pelo ataque de março, expulsando uma série de diplomatas russos do país, à semelhança do que fizeram em solidariedade os EUA e outros países, ao que a Rússia respondeu com a expulsão de diplomatas ocidentais.

A Rússia denunciou esta quarta-feira uma "manipulação de informação" após as autoridades britânicas terem identificado oficialmente dois cidadãos russos como suspeitos de terem usado um agente neurotóxico contra um ex-espião russo no Reino Unido em março passado.

Moscovo garantiu igualmente desconhecer a identidade dos dois indivíduos agora alvo de um mandado de detenção europeu emitido pelas autoridades britânicas.

"Apelamos uma vez mais aos britânicos que acabem com as acusações públicas e com a manipulação de informação", declarou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, citada pela agência noticiosa pública TASS.

"Os nomes e as fotografias que publicaram nos 'media' não nos dizem nada", acrescentou a porta-voz da diplomacia russa, pedindo a Londres para "cooperar" com a Rússia na investigação sobre o envenenamento com 'novichok' (um agente neurotóxico desenvolvido pela então União Soviética no final do período da Guerra Fria) do ex-espião russo Sergei Skripal e da sua filha Yulia Skripal em Salisbury, no sul de Inglaterra, a 04 de março deste ano.

Este caso originou uma grave crise diplomática entre a Rússia e o Ocidente.