Secretas britânicas permitiram tortura de suspeitos

Os serviços secretos do Reino Unido permitiram a tortura e rapto de suspeitos de terrorismo após os atentados de 11 de setembro de 2001, segundo dois relatórios divulgados esta quinta-feira pela imprensa britânica.

Artur CassianoRui SalvadorSusete Henriques
© Arquivo Global Imagens

Os documentos, citados pela BBC e pelo Guardian, contêm as acusações mais graves às secretas do Reino Unido, afirmando que agentes britânicos estiveram envolvidos em centenas de casos de tortura e rapto de suspeitos.

"Encontrámos 13 incidentes em que funcionários britânicos testemunharam em primeira mão um detido a ser maltratado por terceiros, 25 em que detidos disseram a funcionários britânicos que foram torturados e 128 incidentes em que agentes dos serviços secretos foram informados por serviços estrangeiros de casos de maus-tratos", afirma-se num dos relatórios, citado pelo Guardian.

Em 232 casos, o Reino Unido continuou a transmitir perguntas ou informações a outros serviços, apesar de saber ou suspeitar de tortura, e 198 casos em que receberam informações de serviços estrangeiros obtidas de detidos que sabiam ter sido torturados.

"Não há qualquer dúvida de que os EUA e outros torturavam detidos, como não há qualquer dúvida de que os serviços de informações [britânicos] sabiam disso num estádio inicial. O mesmo em relação aos raptos", afirma-se no relatório.

Os relatórios, da comissão parlamentar de segurança e serviços de informações, revelam que embora não haja indícios de maus tratos infligidos diretamente por agentes do MI5 (serviços de informações internas) e do MI6 (serviços de informações externas) sabiam desde "um estádio inicial" da tortura de suspeitos pelos Estados Unidos e outros.

A comissão encontrou ainda três casos em que o MI5 ou o MI6 ofereceu uma contribuição financeira a terceiros para raptarem e transportarem ilegalmente um suspeito ('rendition'), 28 casos em que uma ou outra agência sugeriu, planeou ou concordou com operações de rapto e transporte ilegal propostas por terceiros e 22 casos em que forneceram informações para o planeamento de operações de rapto e transporte ilegal.

As sedes do MI5 e MI6 tinham conhecimento dos relatos de tortura de detidos pelos Estados Unidos, só em 2002 souberam de 38 casos, mas não agiram em relação a eles.

O presidente da comissão, Dominic Grieve, explicou que os deputados decidiram arquivar a investigação depois de o Governo ter recusado acesso a "responsáveis que estavam no ativo à altura" dos factos.

Grieve acrescentou que os relatórios foram agora divulgados por considerar que a informação recolhida deve ser do domínio público.