Moçambique. Histórias de quem foge da morte

No final da gravidez, Muanassa andou fugida pelo mato para escapar aos assassinos. Cato Braime passou a ter 34 pessoas em casa, na ilha do Ibo, entre familiares e amigos que fugiram de Naunde

Graça Henriques
Muanassa Saide com o seu filho nascido à sete dias ao colo, Saide Issa, na vila de Palma, onde foi acolhida opor uma irmã, | foto António Silva-Lusa
Mulher cozinha no meio dos destroços das habitações, atacadas por grupo armado que a 4 de junho invadiu a aldeia de Naunde | foto António Silva/Lusa
Anita Ibraime fugiu com os filhos da aldeia de Naunde, incendiada durante um ataque, para a ilha do Ibo | foto António Silva-Lusa
Distribuição de arroz e feijão aos deslocados na ilha do Ibo, arquipélago das Quirimbas, província de Cabo Delgado | foto António Silva-Lusa
Militares num dos postos de controlo criados na província de Cabo Delgado, na sequência de ataques a povoações isoladas da região | foto António Silva-Lusa
Jacinta Medi dorme fora de casa e já nem muda de roupa, com medo dos ataques na província de Cabo Delgado, conta, ao lado da sua banca no mercado de Macomia | foto António Silva/Lusa

Muanassa Saide passou as semanas finais da gravidez em fuga, depois de escapar a um ataque à aldeia onde vivia e onde lhe mataram um irmão e um tio. Fugiu a meio da noite com a mãe e a cunhada, levou os três filhos e o pai deles ficou a guardar o que deixavam para trás. Ela é uma das muitas que foge dos ataques às povoações isoladas na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Correram umas dezenas de quilómetros pelo mato de Lalane para Olumbe, onde Muanassa apanhou boleia para Palma, sede de distrito que faz fronteira com a Tanzânia, e onde há sete dias nasceu Saide Issa, o bebé que ela carregou na barriga enquanto corria pela vida.

Todos partilham agora do prato da irmã desempregada de Muanassa, anfitriã numa terra onde nunca há muito para comer.

As crianças já não iam à escola e agora o ensino formal está ainda mais longe do horizonte.

Histórias de deslocados que saem sem nada repetem-se pelo casario precário à beira da praia, na baixa de Palma, onde cada habitação abriga várias famílias, por entre palmeiras, sol e pés calejados pelas ruas em terra poeirenta.

A mandioca fresca já era pouca e agora é ainda menos porque a população diz que tem medo de ir às 'machambas' (hortas) e tenta remediar-se com mandioca seca e xima - papas de farinha de milho ou outra mais à mão, conta Momade Issa, residente na aldeia de Monjane.

A festa do fim do Ramadão tem um sabor amargo, com o jejum a ser quebrado, nalguns casos, apenas com pouco mais que um rasto de farinha num pouco de água, relatam.

Ouvem-se os chamamentos para as rezas nas mesquitas, há brincadeiras de crianças e entre os adultos ouvem-se várias línguas: mwani, macua ou swahili - o Português é raro e quando existe é traiçoeiro, com palavras empregues para dizer qualquer coisa menos aquilo que significam.

Muidine Najumo fugiu de Monjane com a família depois dos ataques de 27 de maio em que houve 10 mortos naquela aldeia e em Nangamede, o dia mais sangrento na recente vaga de violência contra povoações remotas do norte de Moçambique.

Prepara-se para regressar, mais vai deixar mulher e filhos em casa do irmão, Sumail Najumo, um carpinteiro viúvo que lamentava viver sozinho, mas que agora reconhece não ter comida que chegue para tanta companhia.

Os dias passam devagar, as horas arrastam-se em convívio que atravessa a rua, da porta de casa à porta em frente.

Hoje é assim, mas desde o último domingo de maio houve momentos de azáfama de deslocados em direção a diferentes sedes de distrito da província de Cabo Delgado.

Momade Issa fez três horas a pé entre Monjane e Palma, com a esposa e quatro filhos, dos três aos 20 anos, carregando toda a trouxa que puderam.

"Custou muito", refere, de regresso à aldeia, onde o medo ainda é grande quando o sol se põe - o que por esta altura do ano acontece pelas 17:00 -, um temor só atenuado pela presença próxima de um grupo de militares.

O dirigente de uma empresa de construção civil lembra-se de ver uma multidão invulgar com pertences à cabeça em Macomia, outra sede de distrito, dias depois de terem sido incendiadas as aldeias de Naunde e Namaluco, também no meio do mato, a 04 e 06 de junho.

Ainda havia fogo e delas fugia gente de barco para o arquipélago das Quirimbas, onde as autoridades locais criaram uma lista de deslocados que permitiu distribuir tonelada e meia de arroz, 800 quilos de feijão, sabonetes e redes mosquiteiras, doações da administração distrital, uma empresa e instituições privadas.

Cato Braime agradece porque, de repente, passou a ter 34 pessoas em casa, na ilha do Ibo, entre familiares e amigos que fugiram de Naunde.

O espaço improvisado entre blocos de barro, terra e uma tenda no quintal parecem pequenos, mas ele garante que "não há problema. Eles perderam a casa e as machambas", que lhes davam alimento, refere Cato, e pior que isso não imagina haver - "é a guerra", refere.

A ilha do Ibo recebeu cerca de 1100 pessoas, todas em casa de famílias e conhecidos, descreve Rafael Gonzales, 35 anos, coordenador da Fundação Ibo, organização que acompanhou a distribuição de ajuda.

Houve chefes de família que, de repente, passaram a suportar a alimentação "de 35 pessoas, em casa e nos seus quintais", numa manifestação de "solidariedade tremenda" entre comunidades muçulmanas.

Ao lado, a ilha de Matemo recebeu quase 700 pessoas.

Os deslocados "saíram a correr das suas aldeias, sem nada. É gente que saiu sem roupas, sobretudo mulheres e crianças, enquanto os homens ficaram a tomar conta do gado e de outros pertences", descreve Rafael, ao retratar aqueles que tiveram um encontro imediato com a violência.

Aos poucos, o movimento já segue em sentido inverso.

Chica Ansumane Ali, não sabe quantos anos tem, mas é "a avó", a mais velha na casa de Cato e diz que não tem medo de voltar para Naunde.

Quando essa gente chegou exigia bens, dinheiro, algo tipo prata, e quando eu disse que não tinha, ficaram nervosos. Mandaram-me com as crianças para fora de casa e queimaram-na

Os homens estão lá, hão de a proteger. Afinal só as mulheres e crianças é que continuam fora, descreve, e está na hora de tratar da 'machamba' e reconstruir a casa que lhe incendiaram na noite de má memória.

"Quando essa gente chegou exigia bens, dinheiro, algo tipo prata, e quando eu disse que não tinha, ficaram nervosos. Mandaram-me com as crianças para fora de casa e queimaram-na", conta Anita Ibraime, 30 anos.

Um relato semelhante ao de Ingamo Jussa, 29 anos, de bebé ao colo: "pediram, mas eu não tinha nada" e agora nem casa lhe resta.

Quer voltar, sem medo, confiante também nos homens que já lá estão.

Muanassa diz que não, diz que prefere embalar o recém-nascido em Palma, junto a uma fogueira, porque fica com pele de galinha quando lhe perguntam se pensa regressar à aldeia, Lalane - a norte de Naunde.

O tio foi baleado em casa, o irmão foi golpeado enquanto assistia a um filme no quintal e ninguém sabe porquê, nem por quem.

Era noite de luar no seu lugar pacato e para Muanassa os contornos dos desconhecidos de catana e metralhadora ainda são muito carregados.