PT vai anunciar hoje Lula como pré-candidato oficial

Ex-presidente avança, indiferente à possibilidade de se tornar inelegível e de ser preso. Outros concorrentes investem contra Temer

João Almeida Moreira
Ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, a falar aos apoiantes, em São Paulo, em janeiro© REUTERS/Leonardo Benassatto

Lula da Silva será hoje anunciado como pré-candidato oficial do Partido dos Trabalhadores (PT) às eleições de outubro, aproveitando o mês da celebração do 38.º aniversário do partido. Na ocasião, lerá uma Carta ao Povo Brasileiro, que marca o pontapé de saída definitivo da sua corrida de regresso ao Palácio do Planalto, oito anos depois de ter cedido a faixa presidencial à colega do PT Dilma Rousseff.

O anúncio será feito independentemente de o ex-sindicalista ter sido condenado a 12 anos e um mês de prisão por um tribunal de segunda instância de Porto Alegre no dia 25 de janeiro, facto que segundo o entendimento da maioria dos juristas o tornaria "ficha-suja", logo inelegível. Mais: de acordo com a lei em vigor, quem for condenado por órgão colegiado, como é o caso da corte em causa, deve ser preso. No entanto, Lula e os seus advogados ainda não esgotaram as possibilidades de recurso - na terça-feira, a sua defesa citou 23 omissões e contradições no julgamento de Porto Alegre para sustentar um "embargo de declaração", expediente jurídico que não tem poder para alterar a sentença mas pode protelá-la mais uns meses.

Em paralelo, há manifestações pró-Lula marcadas pelo país e até no estrangeiro. Ontem, a pretexto da exibição no Festival de Cinema de Berlim do documentário O Processo, sobre o impeachment de Dilma Rousseff, um grupo de emigrantes brasileiros reuniu-se na Potsdamer Platz em defesa do antigo presidente.

Enquanto Lula, líder nas sondagens, avança na pré-campanha, outros pré-candidatos intervêm. O antigo ministro e governador do Ceará Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista, que também disputa votos à esquerda, reuniu-se com Fernando Haddad, ex--prefeito de São Paulo, e dado na imprensa como plano B do PT caso Lula não possa, de facto, concorrer. "Eu como candidato a presidente e o Haddad a vice era a dupla dos sonhos", vem dizendo Ciro Gomes.

Gomes afirmou ainda, a propósito da intervenção militar no Rio de Janeiro, que o atual presidente da República Michel Temer "é uma figura enojante [repugnante]". E aproveitou para criticar o governador de São Paulo e também provável candidato Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira: "Em São Paulo, o crime diminuiu porque defraudaram dados e porque há mais de uma década existe acordo entre as autoridades e o Primeiro Comando da Capital [maior organização criminosa do Brasil, com sede no estado].

A intervenção militar no Rio levou também o segundo classificado nas sondagens, o deputado Jair Bolsonaro, do Partido Social Cristão, a investir contra Temer. "Ele já roubou muita coisa mas o meu discurso não vai roubar, é apenas uma intervenção com fins políticos", disse Bolsonaro, que é militar na reserva e tem a questão da segurança como seu principal cavalo de batalha.

Entretanto, foi ligado o sinal de alerta na candidatura de Marina Silva, do Rede Sustentabilidade, depois de dois dos seus deputados indicarem intenção de mudar de partido. Caso isso se confirme, a Rede passaria a ter um grupo parlamentar inferior a cinco, condição legal para os candidatos poderem participar nos debates.

Em São Paulo